Uma aprendizagem ou o livro dos prazeres

Uma aprendizagem ou o livro dos prazeres

Estar a ler o “Guerra e Paz” tem a vantagem de podermos ler outras coisas entretanto. Ainda mais quando se está a ler o “Guerra e Paz” condensado num só volume, ou seja, mais de 1000 páginas de letra tamanho 8!

Estava lá em casa desde Dezembro, à espera que eu ganhasse coragem para o abrir, “Uma aprendizagem ou o livro dos prazeres”. E um destes Domingos de sol, decidi levá-lo a passear até à praia de Paço de Arcos onde nos sentámos a conversar. E foi uma conversa tão boa que só terminou à noite e na última página. Na verdade não acabou, porque o livro termina com “:” o que não é propriamente um fim.

Fiquei com vontade de o ler depois de ouvir a Zélia Duncan a falar sobre ele como só um apaixonado das letras falaria “O livro começa com uma vírgula, então é um livro que já começou e que eu tenho que pegar no meio, como se fosse um trem já em movimento.” E é mesmo. A história já começou, sem que eles tivessem a delicadeza de esperar por nós e, ou apanhamos o barco, ou ficamos em terra…

É um pânico ter que escrever sobre um livro destes… é tão difícil… só lendo é que se percebe o quanto ele é especial.

Toda a história e aquele romance lindo entre aqueles dois seres é de uma delicadeza, de um respeito (por cada um deles e pelo que sentem um pelo outro) que nos parece ser vivido noutro mundo que não o nosso. Foi um mergulho intenso noutra dimensão. Não consegui parar (ainda bem que era Domingo), e no fim, apesar da vontade de ler mais e mais, e dos dois pontos que não encerram a história, ficamos com a nítida sensação de que o que se vai passar a partir dali já não nos diz respeito.

Fantástica obra da Clarice. Valeu ZD!

A Amy era um génio… mas os meus ídolos são bem comportados!

Quando tinha cerca de 16 anos, a Maria Bethânia disse numa entrevista qualquer coisa como: “Já cantei muito, mas ainda vou cantar muito, porque sempre tive cuidado com a  minha voz. Nunca fiz loucuras de dar cinco shows num fim-de-semana”. Foi um alívio para quem, como eu, se tinha tornado fã da abelha rainha da MPB há apenas dois anos e temia um fim de carreira a curto prazo!

Amy Winehouse era um génio, tal como Cobain, Joplin e Hendrix. Ontem, com a sua morte, nasceu mais uma lenda. Ainda há poucos dias dizia, numa conversa de amigos, que ela devia ser presa pelos estragos irreparáveis que estava a fazer naquela voz absolutamente fantástica. É claro que esta frase é em sentido figurado e que só um grande sofrimento e uma grande incapacidade de dar a volta levam alguém àquele estado. Mas nunca achei que as estrelas rebeldes fossem mais fascinantes que as outras.

Aquilo de que mais gosto na música são as vozes. Vozes femininas e graves, como a de Amy e como as de três mulheres muito diferentes dela: Bethânia, Simone e Zélia Duncan. Intérpretes brilhantes da música mais bonita do mundo, a MPB. Mulheres que conduzem as suas vidas a direito e nem por isso são menos fantásticas que muitas lendas da música. Quando uma delas entra em palco, a única dúvida é se a noite vai ser muito boa ou fantástica!

Natália do Vale e Pedro Barbosa completam a pandilha dos meus ídolos. Faz sentido ainda ter ídolos aos 26 anos? Faz! Faz sentido durante a vida toda! E não vale dizer que o ídolo é o pai ou a mãe. Isso é outra coisa. Faz parte de ser ídolo ter qualquer coisa de inatingível. E eu escolhi os meus, que me inspiram para ser melhor todos os dias.

O Pedro foi, além de um jogador brilhante, um capitão digno de envergar a braçadeira do meu clube. Soube gerir a equipa, nos bons e nos maus momentos, sempre dentro do balneário e longe das capas dos jornais.

Zélia Duncan é uma inspiração. Pela enorme e diária dedicação aos seu ofício, que eu imagino já fosse assim mesmo antes de o Brasil inteiro ouvir “Catedral” na trilha sonora de “A Próxima Vítima”. Cada novo disco renova a sensação de que cada acorde e cada página do encarte foram fruto de um enorme amor pela música.

Lembro-me de ter começado a prestar atenção à Natália do Vale durante “A Próxima Vítima” e desde então acompanhei quase todos os seus trabalhos. Além da obra-prima em que transforma cada personagem, admiro a total sobriedade com que sempre soube gerir a sua vida privada, da qual não se sabe quase nada!

Bethânia e Simone são duas das mais antigas recordações musicais que tenho. Bastava ouvir as vozes, sem saber de mais nada, para que fossem figuras inspiradoras. A juntar a isso, os percursos que fizeram, a convicção com que abraçaram causas fracturantes da história recente do Brasil e a frontalidade de nunca terem fingido ser alguém que não eram, faz delas personalidades que merecem todo o meu respeito.

Provavelmente, há muitos outros cantores, actores e desportistas com estas qualidades, mas também há neste processo razões emocionais que não se explicam… Eu escolhi-os a eles, e ainda bem.

A Amy era um génio, indiscutivelmente. Um furacão que me deixava de boca aberta de tanto talento. Mas os meus ídolos são bem comportados. Durante muito tempo achei meio injusto que os artistas rebeldes ganhassem um estatuto à parte, como se fossem superiores aos restantes. Agora já não acho isso. Percebo que faz parte de ser uma lenda!

E quanto aos ídolos que me inspiram, é um prazer acompanhar, há tantos anos, as vossas carreiras, partilhar os vossos valores e ter-vos como exemplos de vida! E ainda bem que se portam bem. Provavelmente ainda vos vou ter cá por muito tempo…