Ateia Praticante | Parte 4

Isto de não acreditar em Deus, às vezes é uma chatice. É que a minha vida é tão boa, e eu tenho tanta sorte, e acontecem-me tantas coisas fantásticas e inusitadamente boas que é muito comum eu querer agradecer por isso, como os meus amigos católicos agradecem a Deus. Mas depois fico um bocado perdida e pensar “Eu queria muito agradecer por isto, mas não sei a quem!” E, pronto, normalmente acabo por agradecer à vida, essa entidade mística, “devolvendo” a outra pessoa o bem que me aconteceu a mim. Parece-me que é um bom caminho…

 

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Caminhos

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Gosto de estações de comboios.
Ficou-me das novelas e dos filmes a ideia romântica das cenas passadas em estações de comboios. Cenas de encontros e desencontros, de amores impossíveis de materializar (daqueles de que eu gosto tanto que insisto em atrair para mim própria).
Gosto de observar a vida nas estações de comboios. As pessoas que esperam por alguém ou alguma coisa e as que circulam com horas marcadas e observam o painel gigante dos horários, invariavelmente vestido de luto. De luto pelos que ficam querendo partir, de luto pelos que partem querendo ficar.
Gosto de ser observada em estações de comboios. De entrar no átrio com ar de quem tem viagem marcada. Gosto de pensar que quem me vê se põe a imaginar quem sou eu e para onde vou, como eu imagino também a vida das outras pessoas que estão na estação de comboios. Gosto que me vejam andar em frente com aquele meu ar de quem sabe exactamente para onde vai, sem pestanejar, como todas as mulheres decididas que depois se perdem dentro delas mesmas.
Gosto de viajar a ler. A perder-me noutras histórias e a viver outros amores, para, mais uma vez, fazer de conta que está tudo bem com os meus.
Gosto que esperem por mim em estações de comboios. Gosto de saber que alguém me espera com vontade de me ver para me perguntar pela viagem e para me ouvir dizer, como sempre, que correu tudo bem, sem sequer imaginar que muito mais profunda é a viagem que faço ao interior de mim mesma sempre que venho a uma estação de comboios.

IC Lisboa – Guimarães, 17h30, 15 Fevereiro 2013

Imagem Estação
Fonte: HDWPapers

Sonhar não custa…

Hoje ainda não é o dia, mas um dia esta história há de ser contada assim:

Uma mãe chega a casa depois de passear a cadela Gau nas areias da praia em frente à sua casa. No quarto, o filho Francisco, que está a ler antes de dormir chama-a para lhe fazer uma das perguntas da praxe na idade dos porquês. E a partir daqui esta história lê-se com sotaque…

– Mãe, como é que você conheceu o papai?

– Bom… Então… Eu sempre quis morar no Rio, desde que eu tinha mais ou menos a sua idade. Mas eu tinha medo. Medo de não ter trabalho, de ficar longe da família, de ficar sem dinheiro, enfim… medo do desconhecido, apesar de eu sentir que o Rio era minha casa. Então, teve um momento em que eu decidi que tinha que vir de qualquer jeito e marquei uma data. Meu único problema é que eu ainda não tinha trabalho aqui e morria de medo de ficar sem dinheiro e ter que voltar. Foi aí que aconteceu uma coisa muito ruim. Eu tive um acidente. Graças à Deus eu estava fora do carro então não fiquei ferida, mas o carro ficou muito destruído e o seguro deu perda total. Depois de alguns dias de muita tristeza porque eu amava aquele carro e queria ficar com ele por muitos e bons anos, eu achei que talvez ele tivesse outro papel na minha vida. O seguro do cara que bateu em mim pagou a indenização e esse dinheiro me deu uma motivação extra para vir pra cá! No final de Abril eu vim para Rio e fiquei morando uns tempos na casa da tia Martha. Um ano depois a tia João veio passar o Carnaval com a gente e depois a gente foi para a Índia e viajamos dois meses só com uma mochila nas costas. Na volta me chamaram pra trabalhar na equipe de comunicação das Olimpíadas de 2016. Trabalho de sonho! Foi aí que eu conheci seu pai. Numa noite que a equipe foi tomar um chopp no Leblon ele tava lá tocando num barzinho. Quando a gente saiu ele tocou “Chega de Saudade” olhando pra gente e depois mandou um bilhete pra mim. Ele já morava aqui em São Conrado, então eu me mudei pra cá. Quando as Olimpíadas terminaram me chamaram pra trabalhar lá na MPBfm onde fiquei até hoje. Numa noite aqui em casa seu pai estava tocando com a turma dele e eu não tava gostando de alguns dos arranjos, então fui lá sugerir uma coisa diferente. O cara do baixo trabalhava como produtor na Biscoito Fino e me chamou para trabalhar com ele então foi assim que eu fiquei trabalhando como jornalista na Rádio e como produtora musical na Biscoito.

– Então é por isso que você tem uma miniatura desse seu carro antigo lá na estante?

– É filho, para eu nunca esquecer que tudo acontece por algum motivo…

– Ah, tá!

– Vamo’ dormir?

– Mãe, você nunca me contou porque é que você queria tanto vir morar no Rio.

– É. Tem razão Francisco. Nunca contei. Mas isso é uma longa história…

Maybe

Imagem (mandada pela Sofia) 
Fonte: Love Texts

Um dia descobrimos…

… que não precisamos de ter medo de nada e que todos os vazios, um dia, voltarão a ser cheios
… que há amigos que são malta gira, há amigos que são mesmo amigos e há amigos que são almas gémeas
… que os nossos filhos são também aqueles que nos escolheram como pais
… que custa muito mais estar fora do campo do que pensávamos
… que por mais que a nossa cidade esteja lá longe, podemos tê-la sempre perto de nós
… que os sofás dos amigos são o melhor sítio para dormir
… e que o sofá lá de casa é o melhor sítio para beber café com os amigos
… que nem toda a gente que entra na nossa vida pode ficar até ao fim
… que os nossos projectos só são impossíveis até ao dia em que nos dispomos a realizá-los
… que somos nós que definimos os nossos limites
… e que enquanto quisermos podemos sempre ir mais longe
… que as coisas não vão ficar para sempre como estão
… que as ruas de Lisboa podem ser pequenas para tanta alegria
… que não há nenhuma ferida que a música não possa sarar
… que não há distância que possa acabar com uma amizade
… e que amar dói, de bom e de mau, mas que, como dizia o poeta, ter medo de amar não faz ninguém feliz

Lost in Translation

Perdida, perdida, perdida… com muitos caminhos a abrirem-se à frente mas sem conseguir escolher.
Decidir é sempre difícil, quanto mais não seja porque depois teremos sempre que assumir as consequências das nossas decisões.
Há um objectivo definido, lá ao fundo. Essa é a maior certeza e um porto seguro. Vai estar sempre lá…
Enquanto não chega a hora, um passo de cada vez para evitar pôr o pé em falso. Mas às vezes é inevitável. Enterramos um pé, voltamos um passo atrás e tentamos o caminho ao lado na certeza de que um deles há de ser o correcto 🙂

Lost in Translation - Destaque

Imagem Caminhos
Fonte: Olhares plrocha