Quando descobres o encanto de uma coisa que detestavas

Há qualquer coisa de mágico em comer sozinha. E eu não gostava. Não gostava mesmo. Sentia-me sozinha e sem amigos. Até descobrir a beleza desse acto. E agora é mágico. Ir comer fora sozinha, ao almoço ou ao jantar. Escolher o restaurante onde tu queres ir comer. Sentares-te na mesa que tu queres. Escolher a comida. Entregares-te aos teus pensamentos, ao livro que estás a ler, ou vomitares freneticamente tudo o que te vai na alma para um caderno… 

Da última vez que me sentei a ler um livro num restaurante onde me conhecem, acabei a discutir as aventuras de Allon na Irlanda com o senhor da pizzaria. Sempre que vou jantar sozinha ao vegetariano, oferecem-me um chá.

E torna-se quase um ritual isto de ir almoçar ou jantar contigo próprio. Ainda na semana passada isso me aconteceu. Fiquei em Lisboa à noite porque tinha um convite da Sofia para ir assistir à última sessão do curso de Clown que ela estava a fazer. Fui jantar sozinha. Comi um prato vegetariano óptimo, li mais umas páginas d’”A Raíz do Mundo”, bebi um chá fantástico de gengibre e ibisco e comi uma sobremesa. E a seguir fui estar presente num momento importante do curso da minha amiga, ouvir partilhas dos colegas de curso, dançar loucamente dentro de uma sala, até o calor me ir tirando várias camadas de roupa. Uma noite que terminou comigo a com a Sofia a caminhar a pé por Lisboa enquanto conversávamos sobre o seu último exercício do curso e sobre livros. Grande noite!

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Água Viva

água viva

Lê-se de um fôlego. Só pode ler-se de um fôlego porque não podemos parar a meio de uma respiração.

Dá a sensação que Clarice inspirou muito fundo, ao mais fundo das suas entranhas, e depois, de um fôlego, verteu em letras em cima de papel branco todo o conteúdo do seu coração e da sua cabeça (não sendo, de todo, segura a origem de cada uma das linhas).

Não vos consigo explicar mais nada do que isto… mas deixo-vos com alguns recortes:

Eu sou antes, eu sou quase, eu sou nunca. E tudo isso ganhei ao deixar de te amar.
Escrevo-te como exercício de esboços antes de pintar.
 
E respeito muito o que eu me aconteço. Minha essência é inconsciente de si própria e é por isso que cegamente me obedeço.
 
Todos os seres vivos, que não o homem, são um escândalo de maravilhamento: fomos modelados e sobrou muita matéria-prima – it – e formaram-se então os bichos.
 
Minha voz cai no abismo de teu silêncio. Tu me lês em silêncio. Mas nesse ilimitado campo mudo desdobro as asas, livre para viver.
 
Mas lembrar-se com saudade é como se despedir de novo.
 
E eis que sinto que em breve nos separaremos. Minha verdade espantada é que eu sempre estive só de ti e não sabia. Agora sei: sou só. Eu e a minha liberdade que não sei usar. Grande responsabilidade da solidão. Quem não é perdido não conhece a liberdade e não a ama. Quanto a mim, assumo a minha solidão. Que às vezes se extasia como diante de fogos de artifício. Sou só e tenho que viver uma certa glória íntima que na solidão pode se tornar dor. E a dor, silêncio. Guardo o seu nome em segredo. Preciso de segredos para viver.
 
Vou ter que interromper tudo para te dizer o seguinte: a morte é o impossível e o intangível. De tal forma a morte é apenas futura que há quem não a aguente e se suicide. É como se a vida dissesse o seguinte: e simplesmente não houvesse o seguinte. Só os dois pontos à espera.
 

Em Portugal o livro está editado pela Relógio d’Água.