Um passo de cada vez…

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Ter estado uns meses parada rebentou com a minha condição física.

Há cerca de um ano abrandei de repente o meu ritmo de treino e mais perto do fim do ano parei mesmo. Abruptamente. 

Houve uma série de motivos para isso, mas vamos pelo mais simples de explicar: houve um moço e uma cadela bebé a mudarem-se para a minha pequena casa 😀

Quando decidi voltar a treinar, não foi fácil. Perceber que estava num ritmo muito abaixo daquele em que tinha parado foi duro. Perceber que o meu grupo de treino estava num ritmo ainda mais elevado do que quando eu tinha parado foi muito duro. A motivação foi-se abaixo. Cheguei a estar à porta do ginásio para ir treinar e desistir. Outras vezes, saía do trabalho a correr para ir treinar e não conseguia chegar a tempo. O vício bom estava a transformar-se numa dor. Não podia ser.

Há uns tempos atrás decidi que tinha que encarar a coisa de outra maneira. Alterei tudo. O plano de treino, os horários e as expectativas. Passei a treinar de manhã.

Tenho a facilidade de não ter horário estabelecido no trabalho e poder entrar mais tarde e sair mais tarde. Desde Fevereiro treino de manhã três vezes por semana e na semana passada voltei a nadar, coisa que não fazia quase há dois anos. Muitas vezes saio do ginásio frustrada por não conseguir fazer algumas coisas que já fiz em tempos. Mas normalmente consigo focar-me naquilo que consigo e nas pequenas vitórias do dia-a-dia, como por exemplo, num alongamento conseguir tocar com as mãos no pé direito, ou conseguir passar directamente de guerreiro 1 para 3, no Body Balance. Dizem que estou menos sorridente no treino. Eventualmente estarei, sim… mas é porque estou muito mais concentrada. E finalmente consigo estar apenas concentrada no meu treino, nos meus limites e nos meus objectivos, sem mais distracções. E tem sido muito bom. Às vezes vou treinar à tarde, para matar saudades da malta, mas a verdade é que gosto muito de treinar de manhã, onde o meu treino é só meu e onde sinto que estou a construir todos os dias. Devagarinho, um passo de cada vez, e sem me “castigar” por treinar abaixo de X ou Y. Até porque o treino é o meu hobby preferido e por isso é também a melhor maneira de começar o dia!

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Miguel – parte 4 de 4

Depois desceu. Andou assim durante três dias, a cumprir rigorosamente todos os rituais que levara tantos anos a decorar: almoço, remédios, lanche, jantar, remédios, dormir… banho, pequeno-almoço, remédios, jardim, almoço, remédios, lanche, jantar e remédios. Continuou invariavelmente a sentar-se à mesa à hora certa das refeições e sem que ninguém aparecesse levantava-se algum tempo depois e passava para a tarefa seguinte do seu dia, porque sempre lhe tinham ensinado que as rotinas eram muito importantes para ele.

Ao fim do terceiro dia as dores de estômago começaram a tomar proporções que eram difíceis de ignorar e Jerónimo viu-se obrigado a fazer algo mais do que ficar sentado à espera que os colegas chegassem e que alguém lhes viesse trazer a refeição. Não percebia porque raio ninguém aparecia e, se toda a gente lhe tinha infernizado a cabeça durante tantos anos por causa da importância de ganhar rotinas (acenavam-lhe com um regresso à independência que, sabia, nunca iria acontecer), não percebia porque é que de um momento para o outro tinham começado a fazer tudo diferente. Mas Jerónimo confiava. Tinha aprendido a confiar enquanto ainda se lembrava de Margarida e lhe prometiam que se fizesse tudo o que lhe mandavam ia voltar para perto da filha. Ao longo de tanto tempo a viver no Miguel, tinha-se habituado a aceitar as coisas que lhe diziam e faziam como necessária para o tratamento de uma doença que ele continuava a não perceber… se tinha ou não tinha, qual era e o que provocava exactamente.

Ao fim do terceiro dia teve que ir procurar comida. O instinto sobrepôs-se à racionalidade com que encarava as tarefas aprendidas. A racionalidade possível a alguém que há 40 anos vivia internado no Miguel por sofrer de esquizofrenia.

Vasculhou a despensa do hospital, e felizmente, tinham deixado para trás alguns mantimentos na azáfama da mudança (que Jerónimo ainda não percebera que acontecera nem porquê). Continuava a vaguear pelo hospital sem ver vivalma e a achar que deviam estar todos ocupados nas suas tarefas normais do dia-a-dia.

Abriu uma lata de atum e comeu-a lentamente porque sempre tinha achado que quando se comia devagar a comida dava para mais tempo. Depois deitou-a fora, num caixote do lixo que não tinha saco de plástico e foi-se deitar.

Pela terceira noite consecutiva dormiu no chão, porque a sua cama deixara de estar no sítio do costume. A cama foi levada na mudança, porque estava na lista dos objectos que tinham que ser levados para o Júlio. O Jerónimo não. Tinha ficado esquecido na cela 8 do pavilhão de segurança, onde meditava na vida e no porquê das casas redondas, enquanto a equipa do Miguel tinha terminado de pôr todos os objectos importantes dentro das carrinhas e tinha ido para o Júlio, desta vez para não voltar.

Jerónimo dormiu no chão e acordou no chão. Tomou banho sozinho, como todos os dias e pela primeira vez questionou-se sobre a ausência de sabonete no poliban. Esfregou-se com as mãos, enxugou-se com uma tolha que encontrara nas deambulações do dia anterior, vestiu a mesma roupa dos últimos dias, porque não tinha mais nenhuma e saiu, para o seu dia normal.

Chegou ao jardim junto ao pavilhão de segurança e olhou as plantas. Pareciam-lhe iguais a todos os dias e isso lembrou-lhe que alguma coisa não estava igual a todos os dias… Desde que acordara na cela 8 e tinha encontrado o hospital vazio nunca mais lhe tinham dados os remédios. Não lhe parecia nada racional terem deixado de lhe dar os remédios, mas tinha-se habituado a confiar e por isso não se preocupou.

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E pronto… parei aqui… vamos esperar que a inspiração volte para vos contar como acabou a história 🙂

Estão a gostar?

Miguel – parte 3 de 4

… Está uma noite fria em Lisboa e a lua ilumina a cidade como se fosse dia. O vento baralha as folhas das árvores que fazem barulho de ondas a rebentar na linha de areia da praia. Os carros estão arrumados nos seus lugares e as televisões já se calaram nas casas à volta do hospital, agora deserto. As dobradiças enferrujadas da porta de uma cela vizinha rangem dando à noite clara um ar sombrio. Os bichos da noite, os poucos que ainda restam na cidade, circulam pelo pátio do pavilhão cumprindo as suas tarefas de sobrevivência. Dois gatos miam, ao longe, e Jerónimo abre os olhos. À noite não há borboletas nos seus campos imaginários e por isso não há nada com que se entreter. Levantou-se rapidamente, preparado para ir para o refeitório. Se tinha acordado, era de manhã e tinha que tomar o pequeno-almoço. Achou estranho acordar num sítio diferente do habitual. Olhou à volta e viu escuro, mas depois de tantos anos a dizerem-lhe que era louco, achou que deviam ter muita razão e que era ele que não estava a ver bem as coisas. A porta de entrada para o edifício principal está fechada, mas abre facilmente com uma volta no puxador. Lá dentro, ninguém… Os corredores estão vazios e escuros e não se ouve barulho vindo de lado nenhum. Jerónimo tem medo do escuro e não sabe onde se acende a luz. Nunca precisou de a acender nestes anos todos em que a luz estava sempre acesa e havia sempre alguém por perto. Com as mãos a roçarem-se pela parede encontra um interruptor que devolve o dia ao interior do Miguel.

O refeitório estava vazio, e na linha do self-service onde habitualmente se servia da sua refeição não havia pessoas nem comida. Achou que estava maluco, ou então, por algum motivo desconhecido, acordara cedo de mais. Sentou-se no seu lugar de sempre no refeitório e esperou… esperou por mais de cinco horas que alguém viesse trazer-lhe o pequeno almoço. Depois desistiu. Levantou-se, como se tivesse comido o pão com manteiga e o leite habituais e foi para o pátio. Estava a contar pela enésima vez as pedras do chão quando se lembrou que a seguir ao pequeno almoço não lhe tinham dado os comprimidos. Levantou-se, e foi ao quarto, mas os comprimidos não estavam lá. Nem os comprimidos nem o Laércio, o vizinho de cama dos últimos 25 anos. Deve ter ido à ginástica – pensou Jerónimo, para quem a ideia de fazer sessões de fisioterapia não era ainda uma imagem muito clara…

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Miguel – parte 2 de 4

Jerónimo não tinha medo de nada e dizia que sim a todos os pedidos da filha, que se sentia a criança mais feliz do mundo. Todos os dias eram dia de ir ao lago dar pão aos patos, comer gelados e brincar às escondidas atrás das árvores do jardim do campo de Sant’Ana onde passavam os fins de tarde antes do jantar.

Foi num desses fins de tarde que uma denúncia de um homem cinzento vestido de preto deu o alerta às autoridades. Jerónimo era louco. Jerónimo era feliz e fazia a filha feliz e toda a gente sabe que as pessoas felizes são muito perigosas. Se as pessoas felizes viverem à solta, as pessoas cinzentas vão perceber que são cinzentas e isso é muito perigoso.

Levaram-no para o hospital. Chamaram Maria, sua mulher, e confirmaram o diagnóstico: Jerónimo era louco. O veredicto veio dias depois… internamento compulsivo! E não houve gritos nem choro da pequena Margarida que fizessem o senhor de bata branca mudar de ideias. Esconderam-no. E assim, escondido da essência de felicidade que era a filha, Jerónimo ficou cinzento, como todos os outros e deixou de ser um perigo. Manteve-se assim, longe da sociedade durante 40 longos anos em que os médicos e enfermeiros que o receberam levaram com a reforma a lembrança do verdadeiro motivo daquele internamento. No hospital ficara apenas o processo e o processo era muito claro: esquizofrenia.

Jerónimo já não tem família. Margarida, ferida de morte ao ver-se afastada do pai, cresceu amargurada e a contar os dias para se ir embora. Quando fez 20 anos, emigrou para o Brasil e por lá ficou. Jerónimo tem três netos, mas não sabe. Três netos a quem Margarida conta que a felicidade é um segredo que só se pode contar às escondidas dos senhores de cinzento. Maria morreu. Morreu de desgosto pela morte emocional da filha e sem coragem para se impor à moral e aos bons costumes que lhe gritavam que o certo era o marido estar preso, longe delas, porque era louco.

Nos corredores do Miguel a confusão aumenta e Jerónimo começa a ficar com dores de cabeça por ver as borboletas coloridas voarem tão depressa em todas as direcções. Vira costas à mudança, igual a todos os dias, e fecha-se na cela 8 do pavilhão de segurança, onde gostava de se sentar a imaginar por que raio é que tinham construído uma casa redonda. Noutros tempos teria imaginado correrias e jogos de escondidas com a filha, mas agora não. Margarida tinha morrido na memória do pai. Tinha desaparecido ao longo dos anos em que as paredes do Miguel tinham tornado realidade clínica o diagnóstico falso que lhe fizeram quando era feliz. Margarida já não habitava os campos verdes com borboletas há muitos anos. Era a única forma da cabeça de Jerónimo se proteger do sofrimento que lhe causava a imagem da menina mais bonita da escola.

Sentado na cela, Jerónimo olha à volta e conta borboletas. O barulho de fundo que vem do edifício principal do Miguel parece uma música distante e embalado pelo raio de sol que entra pela janela, adormece…

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Miguel – parte 1 de 4

O rebuliço tinha começado cedo, ainda o sol não aquecera a cadeira em que se senta todos os dias, a meio caminho entre Lisboa e o Universo. Hoje era o último dia da mudança. Uma mudança que ninguém percebia, mas que todos defendiam como necessária. Há dois meses tinham mandado juntar os doentes e os técnicos no Salão Nobre para comunicar a decisão e o dia ficou irremediavelmente estragado. Logo após a sessão de esclarecimento, as dúvidas surgiram em catadupa e a verdade é que ninguém tinha resposta para elas. A notícia chegou por despacho, e como todas as decisões que chegavam ao hospital por despacho, era completamente desajustada da realidade de quem lá vivia e trabalhava. Naquele dia, à saída do Salão Nobre, os rostos de todos os presentes esboçavam total incompreensão em relação às palavras proferidas pelo director meia hora antes e que apenas tinham confirmado aquilo que já há dias se ouvia, de hora a hora, nos canais de notícias.

Tinha chegado o último dia da mudança, e apesar da imagem geral de caos, cada personagem parecia saber exactamente o que fazer, como se existisse um guião para aquele momento. Uma espécie de último acto que tinha sido ensaiado vezes sem conta. Cada um deles parecia saber exactamente que peças desmontar, o que transportar, de onde e para onde, e em qual das dezenas de carrinhas de mudanças devia colocar cada um dos pedaços de história do hospital que agora fechava portas.

Estavam naquilo há três dias. Um prazo de loucos para transferir o conteúdo de uma instituição com 165 anos de vida… mas enfim, eram as ordens, e por isso a correria estava instalada. A preparação dos doentes tinha começado muito antes. Uns, em direcção à autonomia que nunca pensaram recuperar e outros, rumo à nova casa que lhes prometiam ser tão ou mais acolhedora do que esta. Mas poderia alguma vez o Júlio tornar-se tão familiar como era o Miguel?

Jerónimo olhava. Olhava e não compreendia nada do que lhe diziam as pessoas que por ele passavam, rostos técnicos tornados familiares nos últimos 40 anos em que, à força, fizeram do Miguel a sua casa:

– Então é hoje Jerónimo!

– Preparado Jerónimo? Casa nova?!

Jerónimo olhava e não percebia. Não percebia o alcance destas palavras. Não percebia que hoje alguma coisa estava diferente. Para ele não estava. No mundo onde vivia, Jerónimo via tudo igual a todos os dias dos últimos 40 anos: homens e mulheres, com e sem farda a transitarem como formigas atarefadas de um lado para o outro a fazer coisas que ele não percebia o que eram nem para o que serviam. No mundo em que Jerónimo vivia, o fervilhar de gente à sua volta não era mais do que o rápido esvoaçar de borboletas coloridas no campo de relva por onde preguiçosamente vagueava todos os dias.

A esquizofrenia de Jerónimo tinha sido descoberta (diagnosticada talvez seja um exagero para a medicina psiquiátrica dos anos 70) numa tarde em que tinha ido buscar a filha à escola. Margarida era muito bonita. Era a menina mais bonita da escola. E a cumplicidade feliz entre ela e o pai fazia inveja a todos os colegas que tinham pais que eram como o país – cinzentos e que não sabiam rir. Jerónimo ria com Margarida. Abraçava-a e dava-lhe beijos todos os dias quando a ia buscar à escola, como se não a visse há uma eternidade. A eternidade que dura um dia quando, de manhã, se entrega uma filha de seis anos numa escola cheia de gente.

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