Sampa D1 | 20 anos depois…

Sampa do meu coração…

Não pisava esta terra há 20 anos e a verdade é que não me lembro de nada. As ruas são muito menos cinzentas do que eu imaginava, mas o tamanho imenso de São Paulo assusta-me.

À chegada à Rodoviária, o primeiro contacto com esta sociedade estranha: há táxis especiais e táxis comuns. Decidimos que um táxi comum dava perfeitamente para aquilo que queríamos e aí fomos nós.
2ª lição em São Paulo: os taxistas paulistas nunca sabem onde fica nada! O Ricardo, na sua ingenuidade, disse ao senhor o nome da rua e ficou à espera que acontecesse magia. Tendo em conta que cada bairro em São Paulo é uma cidade quase autónoma, lá me lembrei de dizer que aquela rua era em Moema e aí sim tivemos feedback “Ah tá, então eu vou na direcção de Moema e lá a gente procura!”. Ui, que medo!

A casa do Francisco fica num condomínio muito nice, parecido com todos os desta zona. Ao contrário do Rio, onde todos os prédios têm um portão de ferro, aqui todas as entradas dos edifícios têm dois níveis de segurança. Depois de respondermos ao porteiro, passamos o primeiro portão e ficamos entre dois portões metálicos. Só depois do primeiro portão fechar é que o segundo se abre, deixando-nos então entrar para o pátio de acesso à porta principal.

Estamos numa típica casa de consultores – está vazia! (Isto é tudo malta que trabalha 12 horas por dia e que não pára em casa, por isso, apesar de ser muito cedo, não está cá ninguém).

Dormimos para descansar da viagem e depois saímos para o Morumbi, onde uma reunião de trabalho que o Ricardo tinha e que era suposto durar uma hora e meia me deixou a dar voltas no Shopping durante 3 horas! Ao fim de ter visto duas vezes as várias mega livrarias dos vários pisos, decidi pôr-me a caminho do Parque Américas para ir resgatar o Ricardo.

Já é de noite, e garanto-vos que para quem está acabadinho de chegar, São Paulo à noite é uma experiência assustadora. Há milhares de pessoas, carros, ônibus, motas e bicicletas a cruzarem as imensas avenidas que circundam a zona. O desgraçado do Tietê (o rio mais feio do mundo) arrasta-se por entre os arranha-ceús e as gruas que o olham lá de cima como quem quer explicar à natureza o que é o progresso.

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Imaginei que o imenso viaduto automóvel que separa o shopping do Parque Américas tivesse passagem para peões, e não me enganei. Sempre a olhar por cima dos ombros, atravessei o Tietê e entrei no meio da selva de prédios.

Ainda tentámos voltar a pé para casa mas, parecendo que não, 5km à noite por ruas desconhecidas e ainda mais no único bairro de classe alta de São Paulo que tem uma favela dentro, talvez não seja boa ideia. Fizemos sinal ao primeiro táxi que passou, e foi nesse momento que percebemos que as coisas em São Paulo estavam mesmo difíceis. Quando perguntámos ao taxista se os táxis que estavam livres tinham a luz acesa ou apagada ele respondeu descontraidamente: “A luz deve estar sempre apagada independentemente de a gente ter passageiros. Só acendemos a luz quando suspeitamos que o passageiro está armado ou alguma coisa assim e aí a polícia manda a gente parar!”.

Pronto, está bem então. Para finalizar o dia em beleza, o Francisco, com quem só falámos ao telefone porque estava em Jacobina a finalizar um projecto, disse-nos que tínhamos que ir ao centro no dia seguinte, que era sexta-feira. Isto porquê? Porque o centro tem imensos edifícios lindos de morrer mas está super perigoso e ainda há o bónus da cracolândia. Se formos num dia de semana há mais gente, e por isso fica um bocadinho menos perigoso…

E com estas informações todas, dormi muito mais descansada! :-/

RJ D7 | O Rio pela janela

Quando acordei na 4ª feira só me apetecia chorar. A partida era um facto irrevogável e ficou decidido que íamos estar na rua até ao limite da hora do autocarro.

Saímos bem cedo para conhecer a Urca a pé e daí partimos para o eixo sagrado Ipanema / Leblon, onde ficámos até às dez da noite! Deu para ir à Toca do Vinicius matar saudades da Bossa Nova e do Carlos, deu para ir à livraria Argumento mergulhar nas prateleiras cheias de livros e discos, almoçar em Ipanema enquanto partimos pedra sobre assuntos do coração, o que, entre amigos, é sempre muito bom, e fazer a Visconde Pirajá, a Ataúlfo de Paiva, a Vieira Souto e a Delfim Moreira um sem número de vezes, porque não há melhor programa quando se está no Rio com o melhor amigo do que andar a pé e conversar até doer a garganta.

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No Arpoador vimos o sol a pôr-se e o Vidigal a transformar-se numa enorme árvore de Natal no morro, à medida que escurecia.

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No boteco, onde jantámos com os Luíses e a Teresinha, falou-se de Portugal, do Brasil, dos nosso emigrantes e do caminho que o mundo vai seguir.

O Paulo apanhou-nos em casa, depois da viagem de autocarro mais maluca e perigosa que me lembro de ter feito na vida, entre Ipanema e Botafogo, e levou-nos para a Rodoviária, por um caminho que atravessa as maiores feridas do Rio: as favelas do centro, e as esquinas onde, apesar da história, o crack ainda faz as suas vítimas. O percurso do ônibus pela Avenida Brasil, a caminho de São Paulo, deixa entrar pelas janelas as imagens cortantes das favelas do subúrbio, onde o valor da vida humana é muito diferente do nosso e onde milhares de cariocas se amontoam em km de bairros de lata ao longo da estrada, de um lado e de outro. Penso na viagem que acabei por não fazer, de carro, pela BR-101 e pelas curvas da estrada de Santos. É porque não tinha que ser. Tem que ficar alguma coisa para as próximas visitas. O cansaço e as lágrimas vencem-me e deixo-me dormir. Quando acordar já estarei em São Paulo… 20 anos depois…