RJ D6 | A Teresa, os meninos da Candelária e a última noite

Estamos quase de partida e isso é uma coisa que me deprime. Ter que sair desta cidade parece-me sempre uma violência brutal, como se me estivessem a arrancar do lugar onde pertenço.

Hoje tínhamos ficado de almoçar no Leblon com a Teresinha, uma das minhas duas melhores amigas da primária de quem perdi o rasto com nove anos e que reencontrei há mais ou menos seis meses. Saímos de casa para tomar o pequeno-almoço em Copacabana e seguimos para o Alto Leblon, onde fica o escritório onde a Teresa trabalha. Finalmente conheci a livraria Argumento, outro ícone cultural da cidade 🙂

Depois do almoço num boteco espectacularmente típico, fomos tentar descobrir onde é que havia um ônibus que nos levasse para o Cosme Velho onde queríamos ir visitar o Namasté, um centro de meditação e bioenergética. Depois de muito procurar à chuva, lá encontrámos o bendito ônibus, que, devido às obras na Ataúlfo de Paiva agora está a passar na Delfim Moreira, e atravessámos metade da cidade para chegar a uma das zonas mais bonitas do Centro. Por obra e graça do Espírito Santo, a ladeira do Ascurra, que queríamos encontrar, ficava exactamente ao lado do terminal de autocarros e foi fácil seguir o caminho em direcção ao cimo, de onde o Cristo nos espreitava por entre as nuvens.

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À saída do Cosme Velho, lembrei-me que ainda não tinha ido à igreja da Candelária, fazer o meu momento de homenagem às crianças vítimas da chacina de 1993. Apanhámos um trânsito infindo dentro de mais um autocarro que faz o percurso do mergulhão da Praça XV até à Rio Branco e descemos na Candelária. A igreja estava fechada, o que é estranho dado que, para os padrões portugueses, estaríamos na hora do terço. Parei, mais uma vez, cá fora, em frente à cruz e aos 8 corpos pintados a vermelho no chão. Continua a parecer mentira que tenha acontecido. Continua a não me entrar na cabeça. Fico ali, parada, em frente à cruz onde estão escritos os nomes dos oito que morreram, como se estar ali, a rezar por eles, me fosse trazer alguma explicação para o inexplicável. É uma agressão enorme ver aqueles corpos pintados no chão e é ainda mais violento ver o número de pessoas que cruza aquele passeio e que já não parece lembrar-se, ou então não quer lembrar-se, de um tempo em que o Brasil vivia a ferro e fogo e em que a polícia brasileira conseguiu produzir em dois anos a chacina da Candelária e o massacre do Carandiru.

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Hoje é a última noite no Rio e por isso, é tempo de incorporar as tristezas e ir dançar no Rio Scenarium, a melhor casa de samba da cidade. Sobre este assunto, exactamente o mesmo que há três anos atrás: felicidade estampada no rosto e no corpo que se sente ainda mais em casa, ainda mais carioca. Samba no pé até a noite acabar!

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RJ D5 | Botafogo – Aterro

Estar de férias no Rio, em Botafogo, e não aproveitar para andar de bicicleta é crime. Por isso, o 5º dia na cidade maravilhosa começou tarde, mas da melhor forma. Equipamento – check; bicicleta – check; folha e marcador para mandar o treino à PT – check; livro para ficar a ler no jardim – check! A ciclovia que liga Botafogo ao Aterro do Flamengo é simplesmente maravilhosa…

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Fui parando a meio do caminho para olhar para a paisagem, de tirar o fôlego, e ao fim de 45 minutos a pedalar, cheguei ao final do aterro. Pareo no chão, coco comprado e lá estava eu sentada à sombra de um coqueiro a ler mais aventuras do Saturnino, o protagonista d’”Os Dias de Saturno”, do Paulo Moreiras.

Confesso que achei estranho estar toda a gente sentada no passeio em vez de estarem debaixo das árvores… estava mesmo a pensar “Estes cariocas são doidos!”, quando um pássaro me chamou lá de cima, do coqueiro. olhei para ele e reparei que a minha cabeça estava mesmo por baixo de um coco. Fez-se luz… Talvez fosse por isso que os cariocas não se sentam debaixo dos coqueiros. Discretamente, mudei o meu estaminé para o sítio onde os nativos estavam sentados e deixei-me estar sossegada. Como diz o Ricardo, ainda bem que o Newton não era carioca…

De volta a casa e de banho tomada, optámos pelo melhor programa para se fazer no Rio, quando não há nada para fazer: IPANEMA! Demos algumas voltas até que começou a chover e se fez tempo de irmos para casa outra vez (o tempo em Ipanema passa muito rápido!). Eram seis e meia da tarde. A Martha e o Bernardo estavam a dormir e nós adormecemos os dois no sofá. Lembro-me de acordar às dez da noite e de levar o Ricardo para a cama e de acordar no dia seguinte.

RJ D4 | As ondas de São Conrado

O Domingo que passámos no Rio foi dia de voltar à Rocinha e ver como é que a comunidade tinha evoluído nestes três anos. O Ricardo e a Mariana chegaram às 7 da manhã de Vitória do Espírito Santo e partimos de Botafogo em busca do 586, o ônibus que atravessa toda a Zona Sul e que sobe a estrada da Gávea em direcção à favela.

Não foi fácil perceber que antes da última curva da Gávea, onde termina o bairro com maior IDH do Rio e começa a Rocinha, todos os ocupantes do ônibus saíram, excepto nós…

Passada a barreira feita pela PM à entrada da favela começaram os 5 minutos de pânico em que estivemos ali meio perdidos, com toda a gente a olhar para nós com uma legenda na testa a dizer “O que é que estes gringos estão aqui a fazer?!”. Houve até uma senhora, que às 09h30 da manhã já estava sentada no chão a beber cerveja, que nos disse para irmos um bocadinho mais para cima porque a vista de lá era mais bonita… Estivemos ali por alguns minutos eternos, até que alguém me chamou e perguntou se eu era a Joana. Uma jovem, de nome Mariana, estava à minha espera para nos fazer companhia até à chegada do Bétão (não estou nada segura de que isto tenha acento, mas é para soar carioca) que apareceu poucos minutos depois.

Foi fantástico rever aquelas ruas três anos depois e perceber que, apesar da pobreza que ainda está instalada até à medula, começam, aos poucos, a surgir sinais de alguma melhoria nas estruturas da favela. As ruas continuam seguríssimas e agora, com a favela pacificada, percebe-se que as pessoas andam mais tranquilas na rua. Passámos por imensos becos e ruas estreitas; cruzámo-nos com sinais de pobreza instalada que doem no fundo do coração; percebemos que, tal como em outras partes da cidade, o saneamento continua a ser um problema muito complicado e que em muitas zonas da Rocinha, o esgoto corre a céu aberto em direcção a São Conrado; passámos por crianças e mais crianças a correr; vimos homens e mulheres nas suas duras vidas diárias; ouvimos falar sobre o que mudou e sobre o que falta ainda mudar e conseguimos a proeza de voltar a encontrar o “Seu Jorge”, da casa Chokito, cuja irmã trabalha no seminário dos Olivais e que há três anos, quando estive no Rio, me tinha mandado recado pelo padre Miguel para que fosse visitar o irmão dela à Rocinha e dar-lhe um abraço pessoalmente.

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Duas horas depois, chegados ao fim da Rocinha, o Ricardo foi voar com o Chico, o que me permitiu ter quase uma hora sozinha para namorar os areais e as ondas de São Conrado 🙂

A água, a areia, o ar, o vento, o cheiro de São Conrado… tinha tantas tantas saudades deste recanto do Rio que depois de fazer a orla da praia duas vezes fiquei parada, no meio do areal, com a água a molhar-me os pés ainda cheios de feridas do primeiro dia. E foi como se de repente todas as coisas más fossem embora e eu voltasse a sentir que o mito do bom selvagem é mesmo verdade. Como se agora, depois de voltar a lavar os pés naquela água, eu pudesse, mais uma vez, voltar a casa para começa de novo, com a certeza absoluta, quase física, de que tudo vai correr bem.

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Depois da melhor hora que passei no Rio, com os pés metidos debaixo da areia e da água da minha praia, foi tempo de dar uma volta na feira hippie de Ipanema e seguir para a festa caipira onde comemorámos o aniversário da Carla, mãe da Camila!

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Além de provarmos algumas especialidades como queijo coalho, salsicha e doces típicos, vivemos a experiência de ver o Brasil disputar a final da Copa das Confederações no meio de uma festa de brasileiros. O jogo foi super animado e o Brasil até ganhou mas provavelmente devido ao clima de protestos que se vive nas ruas e do péssimo fim que teve a manifestação que tinha acontecido junto ao Maracanã, a festa da vitória acabou muito cedo e uma hora depois do final do encontro não havia ninguém nas ruas a festejar.

Uma das melhores coisas do dia foi ter conhecido pessoalmente a Camila, que esteve em Portugal recentemente e até era para ficar em minha casa, mas com desencontros em cima de desencontros acabou por chegar a Lisboa numa altura em que eu estava no Porto.

RJ D3 | Na terra de Araribóia

O dia amanheceu bem cedo e chegou muito rapidamente a hora de ir para Niterói. No Rio, tudo dá certo. Não tinha nada especialmente combinado com o Ivan, nem tinha a menor noção de quanto tempo precisava para chegar de Botafogo à Praça XV e da estação das barcas ao outro lado da baía, mas tinha a certeza que tudo ia correr bem.

Os pés estavam a melhorar lentamente e saí de casa a horas para chegar a tempo às barcas, mas antes ainda passei no café do Uruguaio para beber o único expresso decente que conheço nesta terra e apanhei um dos quinhentos ónibus que vão do Rio Sul para a Praça XV. Sempre à janela, apesar do meu feeling me dizer que aqui, os lugares do meio são mais seguros, atravessei a orla até ao Mergulhão (que na verdade é a parte de baixo de um viaduto) e saí na praça XV. A última vez que estive aqui, no 25 de Abril de 2010, a praça estava cheia de gente. Decorria o Viradão carioca, o festival mais democrático da cidade, e eu vim comemorar o nosso dia da liberdade num concerto fantástico do Milton Nascimento. Hoje é fim de semana e por isso a praça, que habitualmente fervilha de gente nas horas de ponta, está calma. Comprei o bilhete e entrei na barca. A travessia para Niterói faz-se em 20 minutos e à chegada lá, não encontrando o Ivan, sentei-me a ler num banco à sombra da estátua do índio Araribóia, que em 1573 recebeu da coroa portuguesa as terras de Niterói, com a missão de defender o lado oriental da Baía de Guanabara. Foi aí que o Ivan me encontrou.

Depois de um almoço num restaurante de esquina e que tinha como prato do dia a minha amada carne seca mineira com aipim…

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…o Ivan apercebeu-se que eu já conhecia todos os pontos importantes de Niterói, menos o Parque da Cidade, que ele também não conhecia.

Pusemo-nos a caminho, esperámos pelo 32 (enquanto apreciávamos a estrutura de ligações eléctricas que mesmo nas zonas com melhor qualidade de vida, é assustadora)…

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…e lá fomos nós até à praia de Charitas e fomos descobrir como é que se subia para a melhor vista sobre a cidade do Rio de Janeiro. Um senhor super simpático informou-nos que teríamos que subir a pé um morro enorme, com uma estrada a pique e nós fomos. Logo no início da subida, graças a Deus, um alemão que ia a passar de carro ofereceu-nos o boleia. Se tivéssemos subido a pé acho que terímos parado antes. Mas quando chegámos lá acima percebemos que teria valido a pena, mesmo que fosse a pé! Enjoy…

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RJ D2 | Dia de Oxalá na terra

No segundo dia no Rio, acordámos cheios de vontade de um banho de mar. O Ricardo tinha ido para Vitória do Espírito Santo, viagem que eu dispensei porque, depois de sentir o cheiro aqui da terra, decidi que não ia abdicar de dois dias de Rio nem por nada! A Martha estava preocupada com os meus pés, mas respondi-lhe o mesmo: “Você acha mesmo que eu vou perder um dia de Rio de Janeiro por conta de um pé machucado?! Mais rapidamente eu perderia um pé…”

Posto isto saímos para um passeio de sonho por um trilho no morro da Urca onde não faltou passarinho vermelho…

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… e a seguir fomos cumprir a obrigação em dia de Oxalá na terra.. banho de mar para levar tudo o que há de mau em nós. E assim foi… banho na praia vermelha e momento ZEN…

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À tarde fui conhecer uma zona do Rio onde nunca tinha ido. Fomos à Tijuca (que é longe pra cacete!), visitar a mãe da Martha e passar uma verdadeira tarde brasileira: lanche e novelas 🙂

No regresso a casa, a tal da paisagem de sonho na nossa janela…

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… e o relatório de treino 🙂

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