A propósito da greve na TSF…

… quem me dera ter carteira, para poder não trabalhar hoje. E estar lá, com eles.

Quem me dera poder dizer-lhes, a todos, que o meu amor à rádio morreu há meia dúzia de anos, dentro da rádio, quando, durante o estágio, tive que subir ao piso da programação e percebi que a boca do locutor que estava em antena estava desfasada do som que se ouvia no aquário do técnico. Inocente, perguntei à produtora:

– O que é que se passa para o som aqui do aquário estar com tanto delay?

– Não é delay. Ele está a gravar a emissão de amanhã (Sábado). Isto que estás a ouvir é o som em directo, que ele gravou ontem.

– O som em directo que ele gravou ontem? …

Estas reticências prolongaram-se durante muitas horas… as horas que ainda me faltavam para acabar o turno da noite e as poucas horas de sono que tinha disponíveis até ter que acordar e ir para o meu trabalho diurno, que me sustentava para poder estagiar na rádio, de borla.

Nesse dia, morreu a magia da rádio. Porque a rádio não se faz sem gente. Sem gente dentro, e sem gente fora. Não há rádio sem as pessoas que me ensinaram a gostar da rádio, sem aquelas pessoas que, na faculdade, me obrigaram a rasgar a folha de candidatura a estágio porque eu só lá tinha jornais desportivos e televisões. E me disseram que o meu lugar era na antena da rádio. Eu acreditei. E fui. E fui muito feliz na rádio. E depois não quis ficar. Não quero ser desta rádio. Eu não posso ser de um sítio que não tem gente. Eu quero jornalistas, quero técnicos de som, quero locutores, produtores e quero ouvintes. Quero gente que queira ouvir a rádio da gente da rádio.

Obrigada aos que têm carteira e estão hoje a lutar por isso. A minha singela homenagem!

Se as redacções não tivessem enlouquecido…

… Eu poderia voltar a ter a sensação que tive hoje, ao conduzir à noite na Marginal, depois de mais um ensaio. Eu poderia ouvir que o destaque do noticiário das 22h, na rádio da informação, era o facto do Quaresma não fazer parte da lista de convocados de Paulo Bento para o Mundial do Brasil e ficar descansada, com a certeza de que, se aquela era a notícia de destaque, então nada de muito grave poderia ter acontecido no mundo.
Mas depois, afinal, tinham morrido 40 pessoas nas maiores cheias dos últimos tempos nos Balcãs. Só que sucede que os Balcãs são muito longe daqui, e por isso, essas mortes são menos relevantes do que o Quaresma falhar o Mundial.
Fico a imaginar as horas que os programas de comentário desportivo das rádios e televisões vão gastar a opinar sobre o facto. E a quantidade de linhas que vão ser escritas na imprensa e na internet (as caixas de comentários dos jornais desportivos vão rebentar, de certeza!).
E nada mais será dito sobre as criaturas que morreram nos balcãs… E sobre os diamantes de sangue, e os escravos, e as vítimas de violação e as crianças que morrem de fome em terras muito distantes daqui…
Se as redacções não tivessem enlouquecido, eu ainda estaria na minha, onde restam, dos meus colegas da época já muito poucos. Só os que ainda resistem.
Se as redacções não tivessem enlouquecido, eu saberia ainda o que é o doce sabor de se trabalhar no ofício que se escolheu por amor, por ser o mais bonito do mundo.
Se as redacções não tivessem enlouquecido, eu não estaria entusiasmada porque amanhã vou continuar a trabalhar na aplicação que a minha equipa inventou e desenvolveu e que nos mostra, num site, se as casas de banho da empresa estão livres ou ocupadas. Estaria também eu, quem sabe, em frente a um microfone, a dizer ao país desempregado e sem esperança, que o Quaresma não vai ao mundial.
Esta é mais uma noite em que, apesar de triste, eu dou graças a Deus por não estar numa redacção.

 

A última surpresa antes das férias..

… era uma dívida antiga e foi direitinha para a redacção da Rádio Renascença 🙂

Há dois anos, quando pus este quadro no escritório da minha casa, a Ana Carrilho disse-me que a redacção devia ter um igual e eu prometi que fazia. Nunca mais me lembrei, mas nunca mais me esqueci. Portanto, na última semana antes de partir para o Brasil, a encomenda foi preparada e enviada para a Rua Ivens, 14.

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