Concerto de Natal

Eu faço muitas coisas, e muitas vezes já pensei que tinha que cortar nalgumas. Várias vezes pensei em deixar o coro por não ter muito tempo disponível, mas basta-me ir a um ensaio para afastar de imediato essas ideias. Nós não nos limitamos a cantar juntos. Nós somos uma família musical. Muitos de nós não se cruzam fora dos palcos e da sala de ensaio, mas quando cantamos juntos, há qualquer coisa que não se consegue explicar e transformamos os concertos em momentos mágicos, cheios de energia. Especialmente no Natal. Temos muito trabalho, felizmente, e muitas vezes andamos a correr de um concerto para outro, mas quase não custa nada, porque a alegria de cantar para quem nos ouve é absolutamente fantástica.

Posto isto, desafio-vos a virem ouvir e sentir a magia do Natal, amanhã, às 18h no Terreiro do Paço, em Lisboa, naquela que será a quarta de nove actuações em dez dias (Ufa) 🙂10834908_895475567151515_3216638756763366143_o

Come and join the chorus

Já lá vai mais de um ano. E parecia tão difícil na altura… Ainda por cima porque já tinha tido, em tempos, um desencontro profissional com o João, e sempre que a Patrícia e o Miguel insistiam para eu me juntar ao coro, a minha resposta era sempre a mesma… “O João nunca me vai passar na audição!”.

Para dificultar ainda mais, eu só conhecia a Patrícia, a Cláudia, o Miguel e a Joana Gi, quatro pessoas com um nível de prática musical muito superior ao meu, o que me fazia ainda mais acreditar que não seria possível.

Na altura, a minha professora de canto queria à força toda fazer de mim soprano, por mais que lhe dissesse que era alto e que não queria deixar de ser. Tenho muito orgulho nos meus graves e não é por acaso que tenho uma clave de fá tatuada no pescoço – os graves do piano 🙂

E já agora, a nota surreal do texto… a Joana e a Sofia… Se, há um ano atrás me tivessem perguntado quem eram as duas pessoas do coro com quem eu nunca iria ter uma relação próxima eu teria respondido “A Joana Cristóvão e a Sofia!”. E é muito bem feito que tenham sido as duas melhores amigas que eu fiz no coro, a provar que na diferença é que está a virtude. Passei com elas alguns dos momentos mais divertidos da minha vida recente e tenho muito a agradecer-lhes por isso! Isto a juntar ao Jorge, à Cláudia, à Mara, à Rute Mateus e a tanta outra malta fixe que conheci…

Ontem tivemos um dos melhores ensaios de que me lembro.

Passado mais de um ano, muitos concertos depois, ontem estivemos a preparar especialmente o concerto da próxima 6ª feira. É um dos nossos preferidos, e acho que falo por todos. O concerto de aniversário é o momento de mostrarmos aos amigos, à família e ao público o nosso trabalho.

Ontem o ensaio foi fantástico e quem ouça as gravações que tenho no telemóvel pode confirmar que estamos a soar muito bem.

É um orgulho ver como todas as vozes se somam para fazer uma só, é um orgulho ver os solistas a evoluírem de ensaio para ensaio, é um orgulho ver os novos solistas a atirarem-se para a nossa frente de microfone na mão e a darem o melhor porque sabem que estamos lá todos com o mesmo objectivo.

Foi muito fixe ver a malta a responder à chamada do maestro quando foi preciso os tenores reforçarem os baixos e as altos reforçarem os tenores. Foi bonito o aplauso das sopranos quando nós tentámos um esganiçado “Praise his name” numa oitava que eu acho que o meu piano nem tem, e foi espectacular o aplauso ao Piri, em homenagem aos bombeiros portugueses.

Resumindo, há um motivo pelo qual eu faço questão de insistir para que a malta toda nos vá ver na próxima sexta-feira, dia 13, às 21h30 no Jardim do Torel. Podemos não ter uma afinação perfeita, mas onde tanta gente se junta com uma amizade tão saudável e com tanto amor à música, só pode haver um grande espectáculo!

P.S. – Já agora, e porque eu acho que faz falta: Pátrice, és a maior! (e também és a minha cunhada preferida, mas pronto, isso também era fácil, porque és a única!)

Surpresas boas

Um dia, num rigoroso inverno passado em Amesterdão, numa espécie de parabéns à volta de uma tarte de morango que a Sofia conseguiu, a custo, comprar numa padaria da cidade depois de pedir quatro vezes um “birthday cake”, a minha amiga e maior fonte de inspiração Mafalda disse que eu tinha sido uma boa surpresa porque tinha entrado na vida dela numa altura em que ela já não estava à espera de fazer grandes amigos, porque o grupo de amigos dela já estava “consolidado” há anos. (É possível que esta seja a frase mais comprida que eu escrevi na minha vida o que só não é um problema porque graças aos tareões literários e gramaticais da professora Manuela Ventura entre o 7º e o 9º ano, aprendi muito cedo a usar e a abusar das vírgulas).

Embora estivesse a morrer de vergonha, porque os meus amigos tinham decidido fazer-me uma roda de elogios à volta do meu bolo de anos, senti-me uma privilegiada. Privilegiada por ter amigos capazes de fazer uma coisa daquelas e por ser uma pessoa especial na vida da Mafalda que é, provavelmente, a pessoa que mais me inspira e que mais me faz evoluir como pessoa em todas as áreas da minha vida.

Há pouco tempo também tive esta sensação de surpresa boa de que ela falou em frente à toalha de riscas da Sofia, naquela noite gélida em que fiz 27 anos. Eu que estava descansadinha, a achar que a turma do funil estava mais do que definida e que, apesar de ser constituída pelas pessoas mais diferentes entre si que consigo imaginar me faz sentir que tenho os melhores amigos do mundo, fui surpreendida pela entrada na minha vida de duas pessoas que não têm nada a ver uma com a outra mas que são daquelas com quem sentimos, desde o primeiro momento, que o nosso coração bate junto e que queremos ter perto sempre.

Em circunstâncias muito diferentes, ligadas aos meus dois maiores vícios – a música e o desporto – a Joaninha e a Raquel superstar passaram a partilhar comigo gargalhadas, alegrias, tristezas, ensaios, concertos, treinos e momentos de muito sofrimento, físico e psicológico, porque os amigos também servem para isso. Estiveram perto nos momentos muito duros de Abril e Maio e estão perto agora, nesta fase fantástica de férias no Rio e início da vida nova.

Por isto tudo, Joaninha e Raquel, bem-vindas à montanha-russa que é a minha vida e o meu coração. Até agora a malta não se queixa muito das minhas maluqueiras e tem ficado por cá 🙂 Arranjem um lugar confortável e sentem-se connosco à volta da mesa! Gosto muito de vocês!

joanaA Joana e eu, à entrada para um concerto na RTP, acompanhadas à esquerda pela Mara Perdigão e à direita pela Joana Carinhas 🙂

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E aqui, a Raquel e eu, antes do lançamento da nova coreografa de Body Vive, no 5º Aniversário do Vivafit de Paço de Arcos que, não sei se já vos disse, mas é o melhor ginásio do mundo 🙂

Venho de ti…

Venho de ti…
Da voz que me ensinou a gostar de poesia,
A poesia que nunca escrevo,
Porque é na prosa que me encontro,
Que me perco…
Na prosa das vírgulas, dos pontos, reticências,
Na prosa do Eça que me questiona a existência,
Na prosa do Torga que me ensina Portugal,
Na prosa de Assis, de Lispector, do António
Das linhas de textos sem heterónimos…

Venho de ti…
Da voz que me ensinou a ouvir o poeta da minha Lisboa,
Da Lisboa que eu amo, com o sol, o eléctrico e as ruas do chiado
Da Lisboa que amo com coração de carioca
Coração que se completa nas areias de Ipanema
Que quando vê a Guanabara bate disparado
E corre, do Galeão, directo a São Conrado
E aí descansa, sabendo-se em casa
Ao som da cuíca, e do Fado.

Venho de ti…
Mais uma vez, depois de tantos anos
Embalas-me a alma com os acordes da nossa terra
Do meu Rio e do Recôncavo baiano
Com os tambores que marcam o meu ritmo
Com o pandeiro, que me tira do meu sítio
E me leva, de volta, onde pertenço.

Venho de ti…
E amei ver-te, como sempre
Com a voz a ecoar contra as paredes
Com os quatro elementos a brotar-te da garganta
Com o São Carlos, aos teus pés extasiado…
A gritar como se fosse um festival.

Lisboa saiu para ouvir poesia na sala mais nobre da cidade
Lisboa ouviu os poetas na voz mais nobre do Brasil
E eu, que tive o privilégio de me ensinarem a ouvir-te
Quando ainda não sabia bem o que era a poesia,
Ouvi cada linha, cada verso
A morrer de amor pela nossa língua.