Sampa D2 | O Centro

Mais um dia em São Paulo e ainda continuamos sem perceber esta cidade.

Hoje é o dia de ir ao centro, porque tem que ser num dia de semana, caso contrário, passa a ser muito mais perigoso. (E não temos muitas fotografias porque São Paulo está longe de ser um sítio seguro para andar de iphone na rua a recolher souvenirs fotográficos).

Saímos de casa de manhã e andámos a pé cerca de meia hora, até nos cruzarmos com o Portão 8 do Ibirapuera, um dos sítios que eu mais queria visitar. Como aqui os dias são curtos, deixei o Parque para outra altura e seguimos em busca de um ónibus.

Dificuldade seguinte: os ónibus aqui são muito mais difíceis de decifrar do que no Rio (ou então sou eu que me mexo no Rio como em casa e aqui não). Como somos os dois malucos, entrámos num ónibus completamente ao acaso e fomos dar uma volta. E de repente, bingo! O nosso ónibus chegou à Avenida Paulista 🙂 Descemos, fizemos mais de metade da Paulista a pé a olhar para o topo dos prédios e a sentir-nos formigas, passámos pela sede da Gazeta e vimos ao longe o logotipo gigante do Maksoud Plaza, o hotel onde foi filmada uma das cenas mais épicas da Torre de Babel, uma novela que era tão bem escrita e tão bem interpretada que me fez decidir, com 14 anos, que nunca mais ia ver novelas na vida porque tudo o que aparecesse depois daquilo ia ser indiscutivelmente pior.

Passámos mais 15 minutos numa paragem a tentar perceber a mística dos autocarros e decidimos interagir com um nativo,  a minha actividade preferida em férias. O senhor lá nos explicou qual era o ónibus que tínhamos que apanhar para ir para a Sé.

A Catedral de São Paulo não é particularmente bonita. Tem até, na sua construção, alguma austeridade (não me perguntem pelo estilo porque o que garantiu o meu 18 a História de Arte na faculdade foi a reportagem sobre a exposição da Graça Morais em Sines, e não propriamente os meus conhecimentos de arquitectura religiosa). E à saída da Sé: SURPRESA!!!, temos uma mini cracolândia à nossa espera numa praça enorme que temos que atravessar! Impressionou-me o modo jardim zoológico em que aquele sítio funciona… Dezenas de toxicodependentes que vivem naquele espaço, a ressacar da última dose e à espera da próxima, só à espera da próxima, e de nada mais e um monte de agentes da Polícia Militar que têm como único objectivo vigiá-los no seu curto espaço do mobilidade e garantir que não acontece nada aos poucos transeuntes que, como nós, optam por atravessar a praça. E é mesmo só isso porque quando fomos perguntar a um deles como é que íamos a pé para a Pinacoteca, provavelmente o museu mais conhecido de São Paulo, ele contorceu-se de pensamentos e depois de alguns minutos mandou-nos ir ter com o colega…

A explicação que conseguimos foi tão boa ou tão má que nos perdemos ao fim de duas ruas, e ainda bem! Com os enganos, entrámos numa zona assustadora da cidade onde nunca teríamos ido de outra forma. Atravessámos um mercado de rua estranhíssimo – o mais estranho que já vi – em que os vendedores têm na mão catálogos de roupa e ténis de marca que, depois de escolhidos aparecem vindos de um armazém sabe Deus onde…, há milhares de lojas e bancas com roupas e acessórios de carnaval, há as bugigangas mais feias que possam imaginar e sobretudo há uma concentração de pessoas de tal forma intensa que precisamos de pedir licença a um pé para mexer o outro e precisamos de garantir que estamos sempre em contacto visual ou físico um com o outro sob pena de nos perdemos para a eternidade… (sim, porque naquele sítio, eu não iria JAMAIS tirar o iphone da mala para ligar fosse para quem fosse!)

“Pronto, está bom. Enquanto experiência radical chega. Agora tira-nos daqui, por favor!” – foi a frase desesperada do Ricardo quando percebeu que aquilo se estendia por um emaranhado de ruas e não parecia ter fim. Agarrei-o por um braço e puxei-o para um rua que percorremos rapidamente, na esperança de conseguirmos sair daquela teia. Apanhámos um susto com uma perseguição policial a um vendedor e seguimos, sempre a olhar para a frente, na esperança de ver alguma rua conhecida (you’re nuts Joana Fernandes! Não pões os pés nesta cidade há vinte anos, estás à espera de conhecer o quê?!). E eis que de repente surge mesmo uma referência: o mercado municipal! Entrámos directamente para o corredor das frutas e tivemos a sensação de que todas as estações de metro de Nova Iorque estavam a desenbocar temporariamente para aquele espaço. Frutas como nunca vi, gente aos gritos, legumes surreais e por trás um aglomerado de abacaxis e mangas, tcharan: A Banca do Juca! Alguém aí se lembra da Banca do Juca na Próxima Vítima? Onde começou o romance entre o Tony Ramos (o Juca) e a minha estrela Natália do Vale (a “bonitona do Morumbi”)? Não, pois não? Pois… Têm razão… Só eu é que me lembro destas coisas 🙂 mas foi uma emoção!!!

Saímos do mercado pelas traseiras (e claramente notava-se que eram as traseiras!), e seguimos por uma zona pouco aconselhável (“lembrem-se, em São Paulo vocês conseguem sempre perceber se estão numa zona boa ou má”) em direcção ao que, pensávamos nós, era finalmente a Pinacoteca. Mas não… Não só não era ainda a Pinacoteca como, no local onde chegámos – o mega Museu da Ciência – ninguém soube indicar-nos o caminho. Exaustos, cheios de fome, sem a mínima noção de onde estávamos e sem nenhuma vontade de usar os telemóveis para tentar descobrir, sentámo-nos num banco a dizer parvoíces até voltarmos a ter ânimo para continuar a andar pela selva de betão.

O caminho até à Pinacoteca teve pouca coisa gira para contar e o próprio museu também, excluindo uma exposição temporária fantástica de pinturas orientais. Mesmo em frente à porta principal fica o Museu da Língua Portuguesa, onde fiz o Ricardo jurar que me levaria noutro dia, porque já não tínhamos pernas nem costas para fazer nada que não fosse procurar um ónibus para casa, o jardim da Luz e, descobrimos mais tarde, a Cracolândia!

Na volta para casa (pânico! “estamos completamente na outra ponta da cidade, onde raio é que vamos descobrir um ónibus que vá para Moema!?”), ainda passámos por uma antiga fábrica absolutamente devoluta, mas que está habitada de forma tão definitiva por, imagino eu, sem-abrigo e/ou toxicodependentes, que em muitos andares vê-se lâmpadas e cortinas através do espaço das janelas (que na realidade, não existem).

Encontrámos a custo um autocarro que passava em Moema (boa sorte para nós, para sabermos onde temos que sair) e lá fomos para casa, completamente rotos, depois de 6 horas a andar a pé pela cidade. Pouco tempo depois chegou o Francisco, que foi recebido entre abraços e muitas saudades e depois saímos para Pinheiros (ou será Vila Madalena?) para um jantar no RUAA – que recomendo vivamente (façam o favor de babar com o cardápio aqui). Óptimo ambiente, comida super boa e super chique (moderna, vá!) e com preços moderados para o género. E, claro, a parte sem preço: rever o Diogo e a Madalena 🙂 Dia cheio este!!!

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Sampa D1 | 20 anos depois…

Sampa do meu coração…

Não pisava esta terra há 20 anos e a verdade é que não me lembro de nada. As ruas são muito menos cinzentas do que eu imaginava, mas o tamanho imenso de São Paulo assusta-me.

À chegada à Rodoviária, o primeiro contacto com esta sociedade estranha: há táxis especiais e táxis comuns. Decidimos que um táxi comum dava perfeitamente para aquilo que queríamos e aí fomos nós.
2ª lição em São Paulo: os taxistas paulistas nunca sabem onde fica nada! O Ricardo, na sua ingenuidade, disse ao senhor o nome da rua e ficou à espera que acontecesse magia. Tendo em conta que cada bairro em São Paulo é uma cidade quase autónoma, lá me lembrei de dizer que aquela rua era em Moema e aí sim tivemos feedback “Ah tá, então eu vou na direcção de Moema e lá a gente procura!”. Ui, que medo!

A casa do Francisco fica num condomínio muito nice, parecido com todos os desta zona. Ao contrário do Rio, onde todos os prédios têm um portão de ferro, aqui todas as entradas dos edifícios têm dois níveis de segurança. Depois de respondermos ao porteiro, passamos o primeiro portão e ficamos entre dois portões metálicos. Só depois do primeiro portão fechar é que o segundo se abre, deixando-nos então entrar para o pátio de acesso à porta principal.

Estamos numa típica casa de consultores – está vazia! (Isto é tudo malta que trabalha 12 horas por dia e que não pára em casa, por isso, apesar de ser muito cedo, não está cá ninguém).

Dormimos para descansar da viagem e depois saímos para o Morumbi, onde uma reunião de trabalho que o Ricardo tinha e que era suposto durar uma hora e meia me deixou a dar voltas no Shopping durante 3 horas! Ao fim de ter visto duas vezes as várias mega livrarias dos vários pisos, decidi pôr-me a caminho do Parque Américas para ir resgatar o Ricardo.

Já é de noite, e garanto-vos que para quem está acabadinho de chegar, São Paulo à noite é uma experiência assustadora. Há milhares de pessoas, carros, ônibus, motas e bicicletas a cruzarem as imensas avenidas que circundam a zona. O desgraçado do Tietê (o rio mais feio do mundo) arrasta-se por entre os arranha-ceús e as gruas que o olham lá de cima como quem quer explicar à natureza o que é o progresso.

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Imaginei que o imenso viaduto automóvel que separa o shopping do Parque Américas tivesse passagem para peões, e não me enganei. Sempre a olhar por cima dos ombros, atravessei o Tietê e entrei no meio da selva de prédios.

Ainda tentámos voltar a pé para casa mas, parecendo que não, 5km à noite por ruas desconhecidas e ainda mais no único bairro de classe alta de São Paulo que tem uma favela dentro, talvez não seja boa ideia. Fizemos sinal ao primeiro táxi que passou, e foi nesse momento que percebemos que as coisas em São Paulo estavam mesmo difíceis. Quando perguntámos ao taxista se os táxis que estavam livres tinham a luz acesa ou apagada ele respondeu descontraidamente: “A luz deve estar sempre apagada independentemente de a gente ter passageiros. Só acendemos a luz quando suspeitamos que o passageiro está armado ou alguma coisa assim e aí a polícia manda a gente parar!”.

Pronto, está bem então. Para finalizar o dia em beleza, o Francisco, com quem só falámos ao telefone porque estava em Jacobina a finalizar um projecto, disse-nos que tínhamos que ir ao centro no dia seguinte, que era sexta-feira. Isto porquê? Porque o centro tem imensos edifícios lindos de morrer mas está super perigoso e ainda há o bónus da cracolândia. Se formos num dia de semana há mais gente, e por isso fica um bocadinho menos perigoso…

E com estas informações todas, dormi muito mais descansada! :-/