Sampa D4 | o Carandiru e o MLP

Domingo pós-festa é igual a acordar às quinhentas (again!).

O brunch foi num spot espectacular, ao pé de casa, de onde apanhámos o táxi para o Carandiru (sim, o ex maior presídio da América latina!). Esforcei-me bastante para não dizer ao taxista que íamos para o Carandiru, para não dar mau aspecto. Disse que íamos para a Cruzeiro do Sul e nada, tentei Parque da Paz e nada (não sei se já vos tinha dito, mas os taxistas em São Paulo nunca sabem ir para lado nenhum). Até que, conformada, disse “Para o Carandiru!”. Resposta: “Ah, o presídio!”. Pronto…

É difícil acreditar no que já existiu naquele lugar… Achei que, quando chegasse lá, ainda me ia cheirar a sangue e a desumanidade. Mas não… o tempo e a prefeitura deram à cidade um espaço fantástico que hoje está cheio de famílias, jovens e crianças que passeiam, comem e fazem desporto em cima dos destroços da carnificina que envergonhou o Brasil em 1992, dois anos antes da minha chegada a São Paulo. 111. Cento e onze mortos. Todos prisioneiros. Zero PM’s. A história e toda a sua envolvência arrepia-me até hoje, e por isso fiz questão de aqui vir, prestar a minha humilde homenagem àqueles que morreram. Mesmo que a minha homenagem seja só caminhar pelo parque e contar, aos que estão comigo, a história dos que morreram e do que era o mundo do crime em São Paulo no início da década de 90. Ainda bem que o Carandiru já não existe, mas continuo a achar que um dos pavilhões devia ter ficado de pé e aberto ao público, como os campos de concentração. Não estou a comparar a dimensão, mas seria útil, para que nunca nos esqueçamos do que ali aconteceu.

Não há fotos, porque esta também não é um zona boa, mas fica a de uma rua das redondezas e que é igual a muitas das ruas de São Paulo.

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“Bom, então posto isto, eu quero ir ao Museu da Língua Portuguesa”. Esta minha frase foi o gatilho para o Francisco chamar um táxi, mas eu travei-o a tempo.
Joana – “Aqui há metro e na Luz, também. Vamos de metro.”
Francisco – “Como é que sabes que qui há metro?”
Joana – “Por causa do livro. Chama-se Estação Carandiru porque o Dr. Dráuzio Varella, quando vinha fazer voluntariado aqui na prisão vinha de metro e saía sempre na estação Carandiru!”
Francisco – “Pronto. Lá está ela a achar que conhece a cidade toda! Que nervos! :-)”

Entrar naquela estação foi uma experiência. Imaginar como seria naquela altura. Como seria o ambiente, os sons, os cheiros… Agora é bem diferente e quem não souber o que ali se passou, passa pela zona sem se dar conta. Se calhar é assim que tem que ser. Eu acho que não. Três paragens depois, chegamos à Estação da Luz (sim, Francisco, tinha valido a pena virmos de táxi! eheheh), onde nos encontrámos com a Diana.

O Museu da Língua Portuguesa é maravilhoso, dentro do género Letras, claro, que pode parecer estranho para quem não é da área. Tem um primeiro andar com uma exposição temporária que mostra o acervo de Ruben Braga e de onde tirámos estas pérolas:

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O segundo andar é um sítio onde eu ficaria dias a fio. Explica a evolução da língua hoje falada no Brasil, desde as origens até agora e mostra, em ilhas específicas, de que forma é que cada língua influenciou o brasileiro de hoje (desde as línguas europeias até às indígenas!):

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E por fim, no último piso, tem um filme com narração de Fernanda Montenegro que fala sobre a origem da língua falada, de onde passamos para uma sala onde, todos sentados em roda, ouvimos as melhores vozes do Brasil (cantores, actores e autores) a declamar os melhores poemas escritos em língua portuguesa. Claro que é na voz de Maria Bethânia (pausa para vénia de joelhos) que nos aparece Fernando Pessoa:

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Para bónus, o Museu está inserido na Estação da Luz, uma fantástica estação de metro e comboio, que ao fim do dia fica com este visual:

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Aqui, sim, estamos muito perto da Cracolândia e não convém dar passos para fora de pé. Daqui, sai-se dentro de um transporte e de preferência táxi. Foi o que fizemos, a caminho do bairro japonês 🙂

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Depois de atravessar a multidão (São Paulo é assim, aparentemente estava a acontecer um Festival com direito a concertos ao vivo de rock japonês na rua), deparámo-nos com o nosso restaurante fechado, por mudança de instalações. Toca de apanhar outro táxi para outro bairro (perto da Paulista) para onde o dito restaurante se tinha mudado. Jantar terminado e qual é o programa típico de paulista que nós ainda não tínhamos feito??? Shopping!

Uma pequena nota para explicar que há uma aplicação para smartphones que serve para chamar táxis de confiança em São Paulo. Nós chamamos o táxi, o smartphone usa a nossa localização para indicar ao taxista onde estamos e envia-lhe uma foto do dono do smartphone. E nós recebemos no telefone uma foto e o nome do taxista e o número do táxi!

O Francisco e a Diana levaram-nos ao Shopping JK Iguatemi, o shopping mais caro da América Latina, só para vermos o luxo dos corredores, dos restaurantes, das lojas (como esta de vinhos na imagem)…

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Vistas as lojas onde as pessoas que têm muito dinheiro fazem compras, fomos ao supermercado comprar pipocas de pacote para fazer no micro ondas mais pro que eu já vi e vimos um filme em casa 🙂

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Venho de ti…

Venho de ti…
Da voz que me ensinou a gostar de poesia,
A poesia que nunca escrevo,
Porque é na prosa que me encontro,
Que me perco…
Na prosa das vírgulas, dos pontos, reticências,
Na prosa do Eça que me questiona a existência,
Na prosa do Torga que me ensina Portugal,
Na prosa de Assis, de Lispector, do António
Das linhas de textos sem heterónimos…

Venho de ti…
Da voz que me ensinou a ouvir o poeta da minha Lisboa,
Da Lisboa que eu amo, com o sol, o eléctrico e as ruas do chiado
Da Lisboa que amo com coração de carioca
Coração que se completa nas areias de Ipanema
Que quando vê a Guanabara bate disparado
E corre, do Galeão, directo a São Conrado
E aí descansa, sabendo-se em casa
Ao som da cuíca, e do Fado.

Venho de ti…
Mais uma vez, depois de tantos anos
Embalas-me a alma com os acordes da nossa terra
Do meu Rio e do Recôncavo baiano
Com os tambores que marcam o meu ritmo
Com o pandeiro, que me tira do meu sítio
E me leva, de volta, onde pertenço.

Venho de ti…
E amei ver-te, como sempre
Com a voz a ecoar contra as paredes
Com os quatro elementos a brotar-te da garganta
Com o São Carlos, aos teus pés extasiado…
A gritar como se fosse um festival.

Lisboa saiu para ouvir poesia na sala mais nobre da cidade
Lisboa ouviu os poetas na voz mais nobre do Brasil
E eu, que tive o privilégio de me ensinarem a ouvir-te
Quando ainda não sabia bem o que era a poesia,
Ouvi cada linha, cada verso
A morrer de amor pela nossa língua.

A Amy era um génio… mas os meus ídolos são bem comportados!

Quando tinha cerca de 16 anos, a Maria Bethânia disse numa entrevista qualquer coisa como: “Já cantei muito, mas ainda vou cantar muito, porque sempre tive cuidado com a  minha voz. Nunca fiz loucuras de dar cinco shows num fim-de-semana”. Foi um alívio para quem, como eu, se tinha tornado fã da abelha rainha da MPB há apenas dois anos e temia um fim de carreira a curto prazo!

Amy Winehouse era um génio, tal como Cobain, Joplin e Hendrix. Ontem, com a sua morte, nasceu mais uma lenda. Ainda há poucos dias dizia, numa conversa de amigos, que ela devia ser presa pelos estragos irreparáveis que estava a fazer naquela voz absolutamente fantástica. É claro que esta frase é em sentido figurado e que só um grande sofrimento e uma grande incapacidade de dar a volta levam alguém àquele estado. Mas nunca achei que as estrelas rebeldes fossem mais fascinantes que as outras.

Aquilo de que mais gosto na música são as vozes. Vozes femininas e graves, como a de Amy e como as de três mulheres muito diferentes dela: Bethânia, Simone e Zélia Duncan. Intérpretes brilhantes da música mais bonita do mundo, a MPB. Mulheres que conduzem as suas vidas a direito e nem por isso são menos fantásticas que muitas lendas da música. Quando uma delas entra em palco, a única dúvida é se a noite vai ser muito boa ou fantástica!

Natália do Vale e Pedro Barbosa completam a pandilha dos meus ídolos. Faz sentido ainda ter ídolos aos 26 anos? Faz! Faz sentido durante a vida toda! E não vale dizer que o ídolo é o pai ou a mãe. Isso é outra coisa. Faz parte de ser ídolo ter qualquer coisa de inatingível. E eu escolhi os meus, que me inspiram para ser melhor todos os dias.

O Pedro foi, além de um jogador brilhante, um capitão digno de envergar a braçadeira do meu clube. Soube gerir a equipa, nos bons e nos maus momentos, sempre dentro do balneário e longe das capas dos jornais.

Zélia Duncan é uma inspiração. Pela enorme e diária dedicação aos seu ofício, que eu imagino já fosse assim mesmo antes de o Brasil inteiro ouvir “Catedral” na trilha sonora de “A Próxima Vítima”. Cada novo disco renova a sensação de que cada acorde e cada página do encarte foram fruto de um enorme amor pela música.

Lembro-me de ter começado a prestar atenção à Natália do Vale durante “A Próxima Vítima” e desde então acompanhei quase todos os seus trabalhos. Além da obra-prima em que transforma cada personagem, admiro a total sobriedade com que sempre soube gerir a sua vida privada, da qual não se sabe quase nada!

Bethânia e Simone são duas das mais antigas recordações musicais que tenho. Bastava ouvir as vozes, sem saber de mais nada, para que fossem figuras inspiradoras. A juntar a isso, os percursos que fizeram, a convicção com que abraçaram causas fracturantes da história recente do Brasil e a frontalidade de nunca terem fingido ser alguém que não eram, faz delas personalidades que merecem todo o meu respeito.

Provavelmente, há muitos outros cantores, actores e desportistas com estas qualidades, mas também há neste processo razões emocionais que não se explicam… Eu escolhi-os a eles, e ainda bem.

A Amy era um génio, indiscutivelmente. Um furacão que me deixava de boca aberta de tanto talento. Mas os meus ídolos são bem comportados. Durante muito tempo achei meio injusto que os artistas rebeldes ganhassem um estatuto à parte, como se fossem superiores aos restantes. Agora já não acho isso. Percebo que faz parte de ser uma lenda!

E quanto aos ídolos que me inspiram, é um prazer acompanhar, há tantos anos, as vossas carreiras, partilhar os vossos valores e ter-vos como exemplos de vida! E ainda bem que se portam bem. Provavelmente ainda vos vou ter cá por muito tempo…