Quando descobres o encanto de uma coisa que detestavas

Há qualquer coisa de mágico em comer sozinha. E eu não gostava. Não gostava mesmo. Sentia-me sozinha e sem amigos. Até descobrir a beleza desse acto. E agora é mágico. Ir comer fora sozinha, ao almoço ou ao jantar. Escolher o restaurante onde tu queres ir comer. Sentares-te na mesa que tu queres. Escolher a comida. Entregares-te aos teus pensamentos, ao livro que estás a ler, ou vomitares freneticamente tudo o que te vai na alma para um caderno… 

Da última vez que me sentei a ler um livro num restaurante onde me conhecem, acabei a discutir as aventuras de Allon na Irlanda com o senhor da pizzaria. Sempre que vou jantar sozinha ao vegetariano, oferecem-me um chá.

E torna-se quase um ritual isto de ir almoçar ou jantar contigo próprio. Ainda na semana passada isso me aconteceu. Fiquei em Lisboa à noite porque tinha um convite da Sofia para ir assistir à última sessão do curso de Clown que ela estava a fazer. Fui jantar sozinha. Comi um prato vegetariano óptimo, li mais umas páginas d’”A Raíz do Mundo”, bebi um chá fantástico de gengibre e ibisco e comi uma sobremesa. E a seguir fui estar presente num momento importante do curso da minha amiga, ouvir partilhas dos colegas de curso, dançar loucamente dentro de uma sala, até o calor me ir tirando várias camadas de roupa. Uma noite que terminou comigo a com a Sofia a caminhar a pé por Lisboa enquanto conversávamos sobre o seu último exercício do curso e sobre livros. Grande noite!

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Ela e os livros

Hoje pedi a uma visita para escrever. A Rita, de quem já têm ouvido falar por aqui, voltou recentemente a ganhar gosto pela leitura e, por isso, pedi-lhe que nos falasse da sua experiência de leitora e da influência que os livros têm tido na sua vida. Espero que gostem:

Em Agosto eu e a Joana fomos almoçar e no meio de tanta alegria de estarmos juntas e com tantas novidades para contar a Joana disse “Pára tudo, tenho uma mega coisa para te contar! Gostava que escrevesses um texto no meu blog (o meu coração pulou de alegria confesso) mas gostava de te sugerir um tema – o que é que mudou na tua vida desde que começaste a ler.”  Pensei: Oh meu Deus, onde me estou a meter. Mas com um grande sorriso aceitei de imediato o desafio! Passados três meses, deixo-vos esta partilha:

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Quando era pequena via uma série chamada “Uma Aventura”. Adorava ver! Sábado de manhã lá ia eu cedinho… ligava a tv, taça de cereais à frente e só de lá saía quando a série terminasse (nem nos intervalos saia não fosse distraír-me e arriscava-me a perder alguma coisa). A minha avó achava aquilo genial porque durante aquele tempo a criança estava sossegada. Os livros começaram a surgir e num Natal a minha avó fez-me a típica pergunta:

– Tita o que gostavas de ter, filha?

Eu tinha toda uma lista vasta onde estavam bonecas, roupas para as bonecas e outros brinquedos. No fim disse com toda a convicção: 

– Ah, e gostava muito muito de receber o livro de Uma Aventura no Castelo!

A minha avó parou de cortar a cebola, olhou para trás com os seu olhos azuis e perguntou:

– Tita, tens a certeza? Comprei-te a coleção da Anita, leste uma vez e esta ali guardada na prateleira.

– Sim avó, mas estes são para a minha idade e são tão giros!

No Natal o livro estava lá. A minha avó até hoje diz que nunca tinha visto uns olhos a brilhar tanto como os meus naquele momento. O certo é que nos dias seguintes li o livro todo e andava a contar tudo aos meus avós, irmão e prima. A minha avó estava deliciada por vários motivos: primeiro, porque eu estava sossegada e não me portava mal (acreditem, eu era uma verdadeira peste!); segundo, porque sempre tive alguma dificuldade na escola e ela sabia que ler me iria fazer muito bem. A minha prima tinha muita paciência para mim e ouviu-me a contar a história toda. O meu avô chegava a casa estafado do trabalho e muitas vezes a paciência não era muita, mas ainda assim, arranjava paciência para me ouvir a contar o capítulo do dia (até porque essa era a única forma de me conseguir pôr alguma comida na boca). 

Os anos foram passando e os restantes livros foram sempre surgindo. Tive a colecção toda!!!  Ainda hoje os meus avós tem lá todos guardados (juntamente com os d’ “Os cinco” que foram a paixão seguinte). 

Ao longo do tempo, fui deixando de ter interesse em ler. Foram surgindo algumas dificuldades na escola, nas quais os meus avós, infelizmente, não tinham capacidade para me ajudar. Insistiram muito para que eu lesse porque achavam que isso me podia ajudar. Agora que sou mais crescida percebo que quando somos pequenos desvalorizamos coisas a que só aprendemos a dar valor em adultos.  

Comecei a sentir-me vazia quando as palavras eram as mais básicas e os horizontes estavam na mesma (pequenos). No meu curriculum de vida já levava de avanço mais experiência do que se deve ter com a idade que tinha mas continuava com dificuldades. À medida que fui crescendo aprendi a lidar com um dado adquirido “Tem dislexia, coitadinha e tem mau feitio. Temos de saber lidar com isso.” 

NÃO! Se há coisa que a vida me tem ensinado é que nunca é demasiado tarde para aprender. Claro que temos de ter a nossa personalidade mas acho que ter a humildade de perceber que podemos mudar é uma boa ajuda. Então vamos a isso, não vamos ficar sentados a passar a nossa imagem como coitadinhos porque temos problemas na escrita. 

Pois bem, como fiz esta introspecção, achei que uma das coisas que tinha de alterar era voltar a uma coisa de que gostava em pequenita e onde fui feliz: LER! Ao início comecei a ler antes de me deitar mas o sono aparecia mais cedo e eu não aguentava. Comecei a trabalhar em Lisboa e a ir e vir todos os dias de comboio. Esgotei rapidamente as músicas do meu mp3, já não as aguento, e o livro que tinha em casa não era nada de especial. Começam a chegar facturas sem fim relativas à internet do telemóvel que uso para me entreter nas viagens para o trabalho. Pensei para comigo: “Não! Isto vai acabar. Vou ligar à Joana e pedir-lhe uns livros.”

Assim foi. Mandei uma SMS e uns minutos depois tive uma resposta a dizer “Tenho já 6 de parte :)” 

Trouxe os livros para a minha rotina das viagens. Lá vou eu no comboio a ler… Estou a adorar e entro de tal forma na história que as vezes dou por mim a entusiasmar-me. Arregalo os olhos como quem diz: “Não, isto não vai acontecer!” O meu marido está deliciado e está com vontade de ir a casa do pai buscar a biblioteca dele para a nossa casa. 

Depois de tudo isto, o que mudou na minha vida a leitura? Para começar, as minhas viagens de comboio são mais cheias de conhecimento e a minha imaginação começa a trabalhar. A ideia que tinha da internet é que servia para receber informação mas agora é muito mais para informar do que para receber.  Depois, não há coisa melhor que estar numa esplanada com o meu marido a ler um bocadinho. Estamos em silêncio? Sim! Mas os momentos intimistas de um casal também são feitos de silêncios saudáveis. Acho que é ncessário que isso aconteça para que a união seja ainda maior e a partilha das nossas leituras são ainda mais entusiastas. Damos por nós a falar do assunto e a trocar opiniões e é super giro. E por fim, o meu marido adorou ver a factura do telefone a descer 🙂 

Resta-me agradecer a Joana pelo convite, pela confiança e amor que mostrou ao confiar-me este primeiro testemunho e a quem ler este texto obrigada pelos 5 /10 minutos que vos tomei. 

Rita

Jerusalém no sofá

Não há nada a fazer. Quando pego num livro do Daniel Silva, é certo e sabido que, a partir do primeiro terço, é melhor esperar pelo fim-de-semana, porque não vai dar para largar. A última vez que o Allon (protagonista da série e estrela maior da Mossad, os serviços secretos israelitas) me apanhou despercebida foi no Porto, num quarto de Hotel, entre os dois dias de um congresso sobre a morte. Estava eu, leitora incauta, a ler um pouco antes de dormir, sem saber que iria passar a noite em claro e passar o dia seguinte no congresso a bater com a cabeça nas paredes. É porque há ali uma altura, em cada um dos romances, em que pomos na lapela o distintivo da Dream Team comandada por Allon e depois não dá para ir embora antes da mais recente e mortífera ameaça ao estado de Israel estar anulada.

Desta vez foi “O Anjo Caído”, um dos últimos a sair e o que tem mais cenas passadas em Israel, levando-nos por uma inacreditável viagem ao subsolo de Jerusalém e a uma disputa pela sobrevivência e pela história. Eu juro que estava a muito menos de meio. E depois, deitei-me no sofá, com a Ema ao colo e o sol algarvio a entrar pela janela e só terminei perto das onze da noite, depois do Papa ter regressado ao Vaticano em segurança e o Hezbollah ter voltado para casa, para lamber as feridas. E eu que tinha tantas saudades de passar uma tarde no sofá a ler, apaixonada por uma história e desta vez com o bónus de ter a Ema como companhia… E eu, que sempre tive uma opinião a preto e branco sobre o conflito no Médio Oriente e que agora sei que é, provavelmente, a realidade com mais matizes de cinzento na história do mundo…

Para quem não conhece a “saga Gabriel Allon”, aconselho-vos a começar pel’ “A Mensageira”. Podem conhecer a colecção aqui.

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2015 Reading Challenge

Faltam pouco mais de 24 horas para começar o desafio publicado pela 9GAG e que me chegou através da Patrícia. Entretanto já desafiei a minha mãe, que também aceitou. A check-list vai para o painel do quadro e, mensalmente vou publicando uma foto para acompanharem os ticks! Aceito sugestões para alguns itens: “A book more than 100 years old”, “A memoir”, “A book with bad reviews”, “A book with a love triangle” e “A book set in high school”.  No outros 47 acho que me safo! 🙂

Captura de ecrã 2014-12-30, às 10.33.38