Dos dias em que um jornalista não quer ir trabalhar

Por maior paixão que se tenha pela profissão que se escolheu, há dias em que um jornalista pagava para não ter que ir trabalhar…

Há notícias que não queremos dar (muitas), há notícias que nos doem (sim, porque nós também sentimos coisas) e há notícias que nos obrigam a ser a nós próprios, mesmo com os microfones abertos.

Há em Portugal a mania (de que eu também já sofri) de que os jornalistas não podem pensar e dizer coisas e de que os jornais não podem ter editoriais explícitos.

E há gente com coragem, que se borrifa para isso e que decide, num dia especial como o de hoje, fazer um jornal à americana e dizer explicitamente, em directo, qualquer coisa como “Hoje não queria fazer este jornal – tenho que dar a notícia da morte de um homem a quem pude chamar amigo!”. Ainda bem que há pessoas como o Rodrigo Guedes de Carvalho (e claro que o estatuto ajuda a que possa dizer o que lhe vai na alma) que não tem vergonha de fazer um jornal em que é notório que está de rastos. Não faz mal, porque nós também sentimos coisas e não fazemos pior o nosso trabalho por isso.

 

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Acho que vou abrir uma loja

Depois de ter feito um quadro super lindinho que, pelo que sei, ainda está pendurado na parede da minha redacção, dediquei-me aos cadernos, um dos meus objectos preferidos.

Nos últimos meses do ano passado, uma série americana aconselhada por um amigo tirou-me do sério, tirou-me o sono e fez-me sentir outra vez que o meu lugar é numa redacção. Ainda por cima, uma das personagens principais – MacKenzie McHale (Emily Mortimer) – é a personificação da jornalista que eu sempre quis ser: uma mega editora que sabe muito bem o que quer e o que é o jornalismo de verdade. Duas das suas frases emblemáticas na série ficaram a ecoar na minha cabeça, de tal forma que decidi fazer dois cadernos lindinhos com esses lemas na capa. Digam lá que não estão um charme 🙂 Um obrigada à Ju, que me emprestou algum material artístico e à Sofia que já me encomendou dois iguais para oferecer a amigos jornalistas.

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Let’s fight back!

Eu sou uma rapariga de lágrima fácil. Mas (como diria a minha avó) “ele há” temas que me tocam especialmente nos pontos sensíveis e só de falar deles sinto correntes eléctricas a correr-me pelos membros abaixo…

Um deles, claro, aquela que é a meu ver a verdadeira missão do jornalista e do jornalismo. Isso, tudo o que isso envolve e tudo aquilo que são ameaças a essa missão. A resposta da imprensa internacional e do Ocidente em geral ao ataque ao Charlie Hebdo há um ano atrás deixou-me com os sentimentos à flor da pele. A minha vontade naquela noite foi correr de volta para a minha redacção e juntar-me à malta na cobertura da notícia.

Um ano depois, o Público fez isto… e deixou-me a chorar outra vez. Porra, pá! Nós temos MESMO a profissão mais bonita do mundo!

Do meu Workshop

 

No fim-de-semana passado estive mergulhada no mundo do jornalismo de viagens. Depois de uma dia e meio em sala a aprender os truques do ofício e a conversar sobre a melhor forma de contar as histórias com que no deparamos em viagem, saímos para a rua. para o trabalho prático. Deixo-vos em baixo a minha crónica, que resultou desse passeio.

 

À sombra do Rio

Num Domingo frio, Lisboa está presa entre o reflexo cinzento que o céu e o Tejo fazem um no outro.

Uma das colinas escondidas, a que liga o Martim Moniz à Graça atravessando a Mouraria, conta-nos nas paredes a história das muitas vozes e guitarras do fado que ali nasceram e viveram. Uma criança com uma bola corre rua abaixo, um cão salta-nos às pernas a pedir atenção, mãe e filho passeiam-se em roupão de quarto pela calçada gasta. Mais acima pouco parece restar do tempo dos fadistas eternizados nas paredes além das fachadas dos prédios. Os transeuntes (poucos para uma tarde de Domingo) concentram-se em pequenos grupos dentro ou à porta de lojas de mau aspecto. Frutarias, barbeiros, lojas de telecomunicações, tascas e, claro, muitos hostels recém criados numa cidade cujo fluxo turístico disparou nos últimos anos.

Pontualmente, em esquinas, ouvimos o som característico dos programas da tarde, praticamente iguais nas três estações de televisão. Portas entreabertas contam-nos a história de vizinhos habituados à presença uns dos outros, a fazer das ruas do bairro o seu condomínio privado.

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Do miradouro da graça espreitamos de mais alto o cinzento que ocupou o céu e o rio de Domingo. Trocamos impressões sobre os telhados lá em baixo e discutimos animadamente a posição de uma cache (um passatempo recente para locais e turistas) que não chega a ser encontrada nem dentro nem fora do túnel de entrada da Villa Sousa.

A noite cai cedo e depressa e a cache terá que ficar para uma próxima, mas no Largo da Graça, o frio meteu medo a menos gente do que na Mouraria e o rebuliço dos cafés faz-se notar no burburinho que chega à rua.

Um filme recente com uma história antiga desperta a curiosidade para uma visita à Vila Berta, um pequeno núcleo habitacional dentro do bairro da Graça. Construída no início do século XX pelo arquitecto e industrial Joaquim Francisco Tojal, a Vila renova-se agora ao receber jovens famílias que se juntam aos habitantes mais antigos. Baptizado com o nome da filha do arquitecto, o bairro debruça-se para a rua interior encontrando nos pátios e varandas ajardinados uma harmonia campestre que falta nas ruas principais da cidade.

A nova vida do bairro é relatada pela D. Teresa, moradora há mais de 50 anos e fã da nova versão d’ “O Pátio das Cantigas”, motivo que a faz intervir na nossa conversa. À porta de um dos edifícios do lado sudeste vai-nos contando histórias antigas e a emoção das filmagens (entre as quais destaca as noites de “Corta!” atrás de “Corta!” até às 4 da madrugada).

A Dona Ilda abre finalmente a porta (é preciso ter em conta as dificuldades de audição) e a Dona Teresa despede-se deixando o convite para as próximas festas de Santo António.

A noite aguça a chuva que cai com mais intensidade. Encontramos conforto o calor de uma sala apertada e cheia de gente. À porta, o Sr. Jaime dá-nos as boas-vindas à tasca homónima e reforça que está um tempo mesmo bom para uns pastéis de bacalhau. Laura, a esposa, ao ver-nos chegar faz entrar um dos fadistas mais ou menos residentes. A luz apaga-se e faz-se silêncio (excepto pelos pedidos de imperiais feitos em surdina ao balcão).

Ainda não são 7 horas. É noite cerrada, chove e faz frio. Lisboa anoiteceu à sombra de um rio cinzento, mas nem por isso deixa de se cantar o fado.

O caminho às vezes é duro…

Há um caminho duro a percorrer quando nos apercebemos que vamos deixar de perseguir o sonho da nossa vida…

Sempre quis ser muitas coisas até ao dia em que decidi ser jornalista! Nessa altura fazia parte da redacção do Indispensável, o jornal da Escola Secundária do Restelo, e estava no 11º Ano. Calhou-me a mim moderar um debate em que uma das intervenientes era a Teresa Conceição, da SIC, que eu seguia atentamente em todas as reportagens da Volta a Portugal em Bicicleta. E foi a falar com ela que se tornou evidente: “É isto que eu quero fazer!”.

Cheguei a casa eufórica e contei à minha mãe: “Mãe, afinal não vou ser professora de português. Vou ser jornalista!”. A resposta foi surpreendente: “Sempre achei que devias ser jornalista. Nunca te disse nada para não te influenciar, mas acho que é uma profissão que te cai muito bem.”

Depois disto seguiu-se a Faculdade. Fui para a Católica, que tinha o melhor curso de Comunicação Social de todos. Passei com notas razoáveis às cadeiras do primeiro e segundo ano e depois, quando entrámos nas cadeiras técnicas, de jornalismo puro, foi a loucura. Lembro-me de começar os trabalhos de rádio e televisão ainda na primeira semana de aulas. Fiz um trabalho de rádio do qual ainda me lembro quase de cor. Dois dos meus professores “obrigaram-me” a fazer o estágio na rádio e não na televisão, que era o que eu queria. Aproveitei as férias de Verão para fazer um atelier de Jornalismo Televisivo onde me senti como peixe na água e fiz, em horário pós-laboral, um curso em Jornalismo e Religiões (um tema que ainda hoje me interessa muito). Vivi esses anos com espírito de missão, a preparar-me para ter o privilégio de abraçar a mais bonita profissão do mundo. Queria que as pessoas soubessem. Que soubessem sempre a verdade. Que fossem informadas, que pudessem tomar melhores decisões. Queria honrar todos os dias, com o meu trabalho, quem lutou anos e anos para que eu nascesse num país livre. O lápis e caneta iam ser a minha arma na luta pela liberdade. A melhor de todas. Apaixonei-me por aquilo que achava que era a profissão.

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E depois veio o estágio, numa equipa a desmantelar-se, num turno fora do horário nobre. E foram três meses fantásticos. Aprendi imenso. E ainda assim, percebi que não era aquilo que queria. Que o jornalismo em Portugal não era nada do que tinha imaginado e que não havia missão nenhuma. Que maioritariamente era só ler as notícias que chegavam da Lusa e escrevê-las em língua de rádio. E isso era muito menos do que eu tinha sonhado.

Entretanto, e ao mesmo tempo, estava a trabalhar numa agência de eventos (porque os estágios na nossa área não são remunerados e nós também temos contas para pagar), e conheci duas pessoas que me fizeram voltar a acreditar. A Sofia e o Rosendo são tudo aquilo que eu quis ser. E sentem a sua profissão da mesma forma como eu a sentia. Foi um privilégio lidar com eles de perto e aprender com eles, tantas coisas… voltar a acreditar que afinal ainda há jornalistas de missão, que amam o que fazem e que sabem que têm a mais bonita profissão do mundo. E depois veio a descoberta da TSF, o Carlos Vaz Marques, a Ana Lourenço, a despedida do João Paulo Baltazar, a crise do Charlie Hebdo, que me deixou sem ar e a querer ir às manifestações todas, e mais e mais e mais…

Nunca voltei ao jornalismo, embora tenha voltado por muitas e muitas vezes à minha rádio para rever os colegas e amigos e para matar saudades de escrever notícias, ainda que nem todas fossem para o ar.

Neste momento trabalho numa Software House. Quando vim para cá, mal percebia a língua que esta malta fala. Passados dois anos, até já programei um botão em html. Graças ao Rodrigo, que me trouxe para este mundo dos deploys e do versionamento de código, descobri uma verdadeira vocação: pessoas. A nossa equipa é o activo mais importante que temos e garantir que esta equipa e que cada uma destas pessoas é feliz aqui é uma missão desafiante. Para matar saudades, criei uma área de Comunicação – temos redes sociais e Jornal de Parede. Mas a maior parte do meu tempo é usado em recrutamento e gestão de processos relacionados com pessoas.

Durante estes anos tive fases muito difíceis, em que pensar que nunca mais ia voltar ao jornalismo me doía como se tivesse perdido alguém próximo. Finalmente voltei a ter vontade de vir trabalhar todos os dias. Sinto que faço parte de uma equipa alinhada e feliz e que crescemos juntos todos os dias. Sou feliz a fazer o que faço. Vejo muito menos horas da SIC Notícias, embora tenha saudades e gosto sempre de passar os olhos pelo Público à noite e de ouvir um bocadinho de TSF de manhã. Às vezes ainda tenho vontade de saltar lá para dentro, como agora, com esta história ridícula de nos obrigarem a entregar planos de cobertura de campanha. Entregamos mas é o caraças!

Ainda falo em “nós”, às vezes… mas finalmente alcancei a paz de deixar de sofrer todos os dias por ter escolhido um caminho diferente. Enquanto houver “Sofias” e “Rosendos”, estamos bem entregues e eu posso estar descansada!