Ateia Praticante | Parte 5

O Rádio Clube de Sintra (RCS) virou Rádio Evangélica, ou pelo menos religiosa, mas parece-me evangélica. Conheço mal os evangélicos, apesar de cantar num coro Gospel, mas, em alguns aspectos, até acho que têm uma cabecinha mais aberta que os católicos. Mas… esta semana, na vinda de uma reunião em Lisboa, o meu zapping radiofónico passou pelo RCS onde estava a falar um senhor (eventualmente seria pastor, não sei… não quero levantar falsos testemunhos) e fiquei a ouvir um bocadinho. Quando prestei atenção percebi que ele estava a tentar convencer os ouvintes de que a história do paraíso, do Adão e da maçã não eram uma metáfora, mas sim a realidade tal e qual se passou… e pensei: “Ai, espera que isto vai ser bom, quero ouvir mais!”

Portanto, o senhor (de quem não sei o nome) acha que um cristão só é verdadeiramente cristão se acreditar ipsis verbis que Jesus é descendente de Adão e que a serpente existiu mesmo, e a maçã e o paraíso e tal… É impressão minha ou isto era o que me contavam na catequese quando eu era pequena antes de me explicarem (mais ou menos aos 12 anos) que muito do que está escrito na Bíblia são metáfora criadas para transmitir determinadas mensagens? Pois este senhor diz que não… que o que está escrito na Bíblia é tudo verdade, verdadinha… OMG! Pensei que já não havia disto…

Mas o melhor ainda estava para vir. Eu prezo muito o respeito pelo meu ateísmo, tanto quanto prezo o respeito imenso que tenho pela fé das pessoas, em especial do Samuel, do Miguel e do Nuno, três pessoas muito próximas de mim que entregaram a sua vida a Deus. E então não é que o senhor começa a explanar o seguinte e iluminado pensamento: os ateus, os agnósticos, dizem que não acreditam para não terem que prestar contas da sua vida a Deus, porque se eles tivessem que prestar contas a Deus daquilo que fazem, seria muito complicado e teriam muitos problemas e por isso preferem fazer de conta que não acreditam. Mas, quer eles queiram quer não, Deus existe e há-de chegar o dia do juízo final!

Ora bem… como é que eu hei-de explicar… este senhor, aparentemente, parte daquele princípio que me irrita que é “Deus existe, e quem não vê isso é um atrasado mental” e depois ainda sugere que quem diz que não acredita é gente que vive em pecado profundo e por isso finge que não acredita para não ter que prestar contas da sua vida… Ora, eu tenho umas coisinhas para dizer a este senhor:

– É por causa de pessoas como o senhor que milhões em todo o mundo se afastam da igreja e, consequentemente, da fé;

– Não me parece que o preconceito em relação aos ateus seja parte dos ensinamentos de Cristo;

– Os meus amigos católicos (que eu amo de paixão), dizem-me muitas vezes que rezam por mim e para que eu tenha fé. Isso conforta-me e deixa-me feliz. Sei que o fazem porque me amam. Não me ponho aos gritos com eles a dizer que são anormais por acreditarem em fenómenos que não são comprováveis cientificamente;

– Também acha que o Adão arrancou uma costela para criar a Eva? Pelo amor da Santa… é do conhecimento geral que a Bíblia explica muitas coisas através de metáforas e o senhor já não tem idade para acreditar no paraíso… ainda acham estranho os muçulmanos acreditarem que têm não sei quantas virgens à espera no céu… este seu argumento é mais ou menos do mesmo nível;

– Sou ateia. Não me orgulho especialmente disso, nem tenho vergonha. É assim a vida. Não tenho fé, ou a que tive em pequena a igreja fez o favor de ma tirar. Não sou nem mais feliz nem mais infeliz por isso – é assim, pronto;

– Os meus pais, que também são ateus, educaram-me de acordo com os valores cristãos, que são os da nossa sociedade. Tenho uma visão cristã do que é o bem e do que é o mal e tenho uma vida muito mais cristã do que muita gente que se diz fervorosamente crente e se toda a gente respeitasse e amasse as outras pessoas como eu o faço, o mundo seria um lugar melhor;

– Não preciso de prestar contas a ninguém se não a mim mesma, mas a minha almofada julga-me todas as noites e durmo bastante descansada, tão descansada que com alguma frequência faço queimaduras nos pés com o saco de água quente e não dou por isso;

– Sou muito feliz assim e sou muito feliz a viver em comunhão com os meus amigos ateus, padres, católicos, evangélicos e muçulmanos e é assim que deve ser. Assim de repente, parece-me que foi isto que Jesus veio dizer… mas eu admito poder ter percebido mal a mensagem do altíssimo, até porque não faço parte do grupo de seres, a seu ver, superiores, que foram escolhidos para ter a vida iluminada pela fé! 🙂

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Ateia Praticante | Parte 4

Isto de não acreditar em Deus, às vezes é uma chatice. É que a minha vida é tão boa, e eu tenho tanta sorte, e acontecem-me tantas coisas fantásticas e inusitadamente boas que é muito comum eu querer agradecer por isso, como os meus amigos católicos agradecem a Deus. Mas depois fico um bocado perdida e pensar “Eu queria muito agradecer por isto, mas não sei a quem!” E, pronto, normalmente acabo por agradecer à vida, essa entidade mística, “devolvendo” a outra pessoa o bem que me aconteceu a mim. Parece-me que é um bom caminho…

 

Ateia Praticante | Parte 3

A Resignação

Há uma semana atrás fui à missa. Não é costume, mas proporcionou-se e acabei por ir. Sempre que estou numa celebração tenho a sensação de que as pessoas respondem ao padre sem pensar no que estão a dizer. Posso estar a ser muito injusta, mas é o que me parece. Eu estou super atenta durante aquela hora e ouço palavra por palavra. E depois fico a pensar. Durante a homilia (que foi de alto nível!), reparei que a figura que estava mesmo à minha frente, à direita do púlpito de onde o Padre Miguel falava aos fieis, era de São José. Apesar do ateísmo militante de há muitos anos, senti alguma familiaridade no olhar com que José olhava para o menino que tinha nos braços. Depois fez-se luz! São José é o padroeiro do meu colégio, onde estudei durante 10 anos, e por isso, praticamente uma pessoa de família. Tivemos uma excelente conversa durante aquele bocadinho, que se estendeu para a consagração. Eu não comungo e portanto pudemos ficar os dois a conversar enquanto as pessoas se dirigiam ao altar para partilhar o corpo de Cristo. Falámos sobre Deus, sobre a igreja, sobre os homens e sobre os homens da igreja. Disse-lhe que gostava muito que a igreja evoluísse num determinado sentido, mas que sabia que as coisas no Vaticano acontecem devagar e que não seria neste papado que assistiríamos a grandes mudanças. Depois dos últimos recados da missa, saímos em paz e eu agradeci a São José por aquele bocadinho que passámos os dois.

2ª Feira de manhã: Notícia do dia – o Papa vai resignar a 28 de Fevereiro. Ainda achei que era brincadeira de Carnaval, até porque vi a notícia, em primeiro lugar, n’O Globo, mas depois de perceber que era o principal destaque da informação da Renascença, percebi que era a sério. Não esperava esta atitude vinda de Bento XVI. Nunca esperei dele grande coisas que não fosse manter o rigor das ideias e tradições da igreja e da complicada teia do Vaticano. Agora percebo o quanto fui injusta. Estou impressionada com a coragem deste homem. Esta decisão e tudo o que ela representa são uma lição muito grande para quem quiser entendê-la. Para mim, que acredito que a igreja vai ter que evoluir, é um sinal claro deste homem que parece querer dizer-nos que só porque as coisas sempre foram feitas de uma determinada maneira, não quer dizer que não possam ser diferentes. Não estava à espera disto. Fui surpreendida pela positiva! E tenho cá para mim que isto tem muito a ver com aquela conversa que eu e o São José tivemos naquele Domingo, na igreja das Caldas enquanto ouvíamos o Padre Miguel falar da vocação e do amor de Cristo.

Ateia Praticante | Parte 2

Como diz o Ricardo Araújo Pereira “eu sou ateu praticante, todos os dias tiro meia hora para pensar que Deus não existe!”

E é nessas meias horas em que reflicto sobre a fé, Deus e a igreja que encontro estas coisas que até fazem todo o sentido na minha cabeça se retirarmos Deus da equação:

“Concede-me Senhor,
SERENIDADE para aceitar as coisas que não posso mudar,
CORAGEM para mudar as que posso e
SABEDORIA para distinguir umas das outras”

in GPS da Vida Cristã (presente de anos da minha amiga Vanessa)

Trazendo-A-Arca-Entre-A-Fe-E-A-Razao-Frente

Imagem 
Fonte: Minha Maricota Maricotinha

Maomé

Eu não sou preconceituosa. Pelo menos não com muitas coisas. Ok. Na verdade eu sou preconceituosa, mas não com muitas coisas. Uma delas é com a liberdade. Não com a liberdade individual, porque acho que os homossexuais podem adoptar e que os padres podem casar e que se os três concordarem o Otelo até pode ter 2 mulheres. Acho que das portas para dentro manda quem mora e mais ninguém tem nada com isso (excluindo casos de violência e afins). Mas sou preconceituosa com a liberdade colectiva. No colégio dominicano onde estudei durante 10 anos ensinaram-me desde muito pequenina que a minha liberdade acabava onde começava a do outro e eu levo isso demasiado a sério. E lembro-me sempre disso quando há mais episódios da novela “gravuras de Maomé”. Sim, eu sei. A civilização ocidental tem as suas regras e os muçulmanos fanáticos não as respeitam e portanto também não temos que respeitar as deles e etc… e a nossa sociedade não se pode reger pelo medo e tal… tudo muito bonito, quando não estão envolvidas vidas humanas. Respeito a liberdade mais do que tudo, e acho que os artistas devem poder representar tudo o que quiserem, mas… a sério… há mesmo necessidade de continuar a fazer estas representações quando já sabemos qual vai ser o resultado?

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Imagem Mesquita Hassan, Cairo, Egipto
Fonte: Seminário Processo Penal