Perguntas sem resposta…

99_balloons_by_XenosagA

Hoje, na corrida Marginal à Noite, em conversa com o Bernardo (que deve ter perto de 7 anos!)…

Bernardo – Joana, olha ali… largaram uns balões que estão a voar. O Jesus vai ficar zangado!
Eu – Zangado?! Ò Bernardo, Jesus não se zanga, ele vai é brincar com os balões.
Bernardo – Mas como é que ele vai agarrar nos balões?
Eu – Então… vai esticar o braço e apanha-os!
Bernardo – Mas o Jesus está aonde?
Eu – Está no céu!
Bernardo – Como é que o Jesus pode estar no céu se ele está no meu coração?!

E é isto…

Imagem Balões
Fonte: Deviant Art

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“Que seja de Deus!”

VATICAN-POPE-VOTE-BALCONY-FRANCOIS I

Foi com esta frase que um grande amigo partilhou comigo a sua alegria pela eleição do Papa Francisco.

Estou a meter-me em assuntos que não são meus, mas vivi tão intensamente este processo todo (que começou com uma conversa com São José, numa missa nas Caldas da Rainha, em vésperas da resignação) que preciso mesmo de dizer umas coisas sobre este assunto.

Não tenho a mínima dúvida de que foi a igreja que, há muitos anos, me afastou da fé. E não tenho a mínima dúvida de que o mundo precisa de uma igreja católica refeita dos seus traumas e de coração aberto para nos ensinar que o caminho está no amor. Mas também não tenho dúvidas de que, para que isso seja possível, a igreja tem que mudar, muito. Aliás, todos os católicos que ouvi por estes dias, ao vivo, na televisão ou na rádio, falaram em mudanças. Em mudanças necessárias. Parece que estão reunidas as condições para isso porque o povo de Deus quer mudanças e está preparado para elas. O que é surpreendente é que parece que essa mudança está mesmo a acontecer. A nós parece-nos devagar, mas tendo em conta a estrutura imensa de que estamos a falar, a mim parece-me que estamos a mudar à velocidade da luz.

Hoje ouvi o cardeal Dom José Policarpo a dizer uma coisa muito interessante: se o Papa Francisco tivesse sido eleito no conclave de há 8 anos, mesmo que quisesse fazer grandes mudanças, não teria condições para isso e hoje em dia tem.

De facto, não deixa de ser engraçado que tenha sido Ratzinger, um Papa que à partida ligávamos tanto à tradição da igreja e que nos parecia um homem tão austero, a abrir caminho para que mudanças tão relevantes possam ter lugar brevemente. Depois da resignação, há caminho para mudanças, e ainda bem.

Comoveu-me a emoção das pessoas em S. Pedro. Estive o dia todo com o streaming da chaminé no cantinho do ecrã do computador, e o fumo branco apareceu quando estava no meio de uma reunião. Não deixa de haver uma sensação de estar a viver um momento histórico, e a história em directo é sempre emocionante.

Fiquei feliz por ser um Papa da América do Sul, continente onde a fé católica está pujante. É importante este sinal de não-centralismo da religião. Fiquei muito feliz por termos um Papa Jesuíta. Sou suspeita, mas sempre achei que os Jesuítas são um mundo à parte dentro da igreja. Identifico-me totalmente com a forma de estar da Companhia e acho que um Jesuíta à frente da igreja só pode trazer coisas boas.

Fiquei ainda mais feliz com a escolha do nome Francisco. Por vários motivos. Primeiro porque é um nome que eu adoro e que quero dar a um dos meus filhos. Depois porque é o nome do Chico Buarque 🙂 e depois, e estes sim são os motivos ligados à igreja, pelas inspirações de Francisco Xavier e de Francisco de Assis e pelo sinal que é a escolha de um nome novo, como quem quer dizer que vamos começar uma coisa nova, que não é continuação de nenhuma das anteriores.

Não querendo embandeirar em arco, até porque temos que deixar o senhor respirar, aqueles primeiros momentos na varanda foram sintomáticos daquilo que me parece ser um homem humilde, que fala de coração e que ama os outros como a si mesmo. Foi bonito a forma simples como se vestiu, foi bonito rezar por Bento XVI, foi muito bonito ter pedido a bênção antes de abençoar e foi extraordinário a forma improvisada como falou ao povo de Deus ali reunido. Avizinham-se coisas boas, parece-me.

Hoje, o Carlinhos escreveu no Facebook: “Se não me caso contigo, torno-me padre”, disse Jorge Bergoglio, actual Papa Francisco, a Amália, a sua primeira e única namorada na Argentina. Sinal de que amou de verdade. Daquele amor que sabe que “ou é contigo ou não é com mais ninguém”. É muito bonito isto. O tempo dirá, mas, por enquanto, estou feliz 🙂

P.S. – Sim, ultimamente ando a falar muito de Deus e da igreja. Mas eu nunca menti a ninguém… não sou crente, mas a fé dos Homens e os seus assuntos fascinam-me. Além disso, a verdade é que entre amigos padres, coro religioso, voluntariado e amigos “beatos”, a fé é um assunto que eu não tenho muita hipótese de ignorar… E é isto ser ateia praticante 🙂

Imagem Papa Francisco
Fonte: O Globo

Ateia Praticante | Parte 5

O Rádio Clube de Sintra (RCS) virou Rádio Evangélica, ou pelo menos religiosa, mas parece-me evangélica. Conheço mal os evangélicos, apesar de cantar num coro Gospel, mas, em alguns aspectos, até acho que têm uma cabecinha mais aberta que os católicos. Mas… esta semana, na vinda de uma reunião em Lisboa, o meu zapping radiofónico passou pelo RCS onde estava a falar um senhor (eventualmente seria pastor, não sei… não quero levantar falsos testemunhos) e fiquei a ouvir um bocadinho. Quando prestei atenção percebi que ele estava a tentar convencer os ouvintes de que a história do paraíso, do Adão e da maçã não eram uma metáfora, mas sim a realidade tal e qual se passou… e pensei: “Ai, espera que isto vai ser bom, quero ouvir mais!”

Portanto, o senhor (de quem não sei o nome) acha que um cristão só é verdadeiramente cristão se acreditar ipsis verbis que Jesus é descendente de Adão e que a serpente existiu mesmo, e a maçã e o paraíso e tal… É impressão minha ou isto era o que me contavam na catequese quando eu era pequena antes de me explicarem (mais ou menos aos 12 anos) que muito do que está escrito na Bíblia são metáfora criadas para transmitir determinadas mensagens? Pois este senhor diz que não… que o que está escrito na Bíblia é tudo verdade, verdadinha… OMG! Pensei que já não havia disto…

Mas o melhor ainda estava para vir. Eu prezo muito o respeito pelo meu ateísmo, tanto quanto prezo o respeito imenso que tenho pela fé das pessoas, em especial do Samuel, do Miguel e do Nuno, três pessoas muito próximas de mim que entregaram a sua vida a Deus. E então não é que o senhor começa a explanar o seguinte e iluminado pensamento: os ateus, os agnósticos, dizem que não acreditam para não terem que prestar contas da sua vida a Deus, porque se eles tivessem que prestar contas a Deus daquilo que fazem, seria muito complicado e teriam muitos problemas e por isso preferem fazer de conta que não acreditam. Mas, quer eles queiram quer não, Deus existe e há-de chegar o dia do juízo final!

Ora bem… como é que eu hei-de explicar… este senhor, aparentemente, parte daquele princípio que me irrita que é “Deus existe, e quem não vê isso é um atrasado mental” e depois ainda sugere que quem diz que não acredita é gente que vive em pecado profundo e por isso finge que não acredita para não ter que prestar contas da sua vida… Ora, eu tenho umas coisinhas para dizer a este senhor:

– É por causa de pessoas como o senhor que milhões em todo o mundo se afastam da igreja e, consequentemente, da fé;

– Não me parece que o preconceito em relação aos ateus seja parte dos ensinamentos de Cristo;

– Os meus amigos católicos (que eu amo de paixão), dizem-me muitas vezes que rezam por mim e para que eu tenha fé. Isso conforta-me e deixa-me feliz. Sei que o fazem porque me amam. Não me ponho aos gritos com eles a dizer que são anormais por acreditarem em fenómenos que não são comprováveis cientificamente;

– Também acha que o Adão arrancou uma costela para criar a Eva? Pelo amor da Santa… é do conhecimento geral que a Bíblia explica muitas coisas através de metáforas e o senhor já não tem idade para acreditar no paraíso… ainda acham estranho os muçulmanos acreditarem que têm não sei quantas virgens à espera no céu… este seu argumento é mais ou menos do mesmo nível;

– Sou ateia. Não me orgulho especialmente disso, nem tenho vergonha. É assim a vida. Não tenho fé, ou a que tive em pequena a igreja fez o favor de ma tirar. Não sou nem mais feliz nem mais infeliz por isso – é assim, pronto;

– Os meus pais, que também são ateus, educaram-me de acordo com os valores cristãos, que são os da nossa sociedade. Tenho uma visão cristã do que é o bem e do que é o mal e tenho uma vida muito mais cristã do que muita gente que se diz fervorosamente crente e se toda a gente respeitasse e amasse as outras pessoas como eu o faço, o mundo seria um lugar melhor;

– Não preciso de prestar contas a ninguém se não a mim mesma, mas a minha almofada julga-me todas as noites e durmo bastante descansada, tão descansada que com alguma frequência faço queimaduras nos pés com o saco de água quente e não dou por isso;

– Sou muito feliz assim e sou muito feliz a viver em comunhão com os meus amigos ateus, padres, católicos, evangélicos e muçulmanos e é assim que deve ser. Assim de repente, parece-me que foi isto que Jesus veio dizer… mas eu admito poder ter percebido mal a mensagem do altíssimo, até porque não faço parte do grupo de seres, a seu ver, superiores, que foram escolhidos para ter a vida iluminada pela fé! 🙂

Questões religiosas complexas 1

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Questões religiosas complexas que me perturbam:

Porque é que uma espécie de pão de leite redondo é um brioche e essa mesma espécie de pão de leite redondo com coco ralado e açúcar em pó é um Pão de Deus? Já agora, vale a pena pensar nisto…

Imagem Pães de Deus
Fonte: Pedro Fonseca

Ateia Praticante | Parte 4

Isto de não acreditar em Deus, às vezes é uma chatice. É que a minha vida é tão boa, e eu tenho tanta sorte, e acontecem-me tantas coisas fantásticas e inusitadamente boas que é muito comum eu querer agradecer por isso, como os meus amigos católicos agradecem a Deus. Mas depois fico um bocado perdida e pensar “Eu queria muito agradecer por isto, mas não sei a quem!” E, pronto, normalmente acabo por agradecer à vida, essa entidade mística, “devolvendo” a outra pessoa o bem que me aconteceu a mim. Parece-me que é um bom caminho…