Açores 4 | A volta à ilha

Dos dois dias seguintes já não me lembro exactamente de nada, a não ser o facto de termos feito a volta à ilha em dois dias. A metade ocidental no primeiro e a oriental no segundo. Por isso, ficam as fotos e, como podem ver pela última, parecendo que não, fazia vento…

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Açores 2 | O Pilar da Bretanha

Decidimos que íamos começar a explorar os Açores logo no primeiro dia e portanto, fomos aos sites de trekking que tínhamos visto e escolhemos um percurso que nos pareceu simpático e com uma quilometragem mais ou menos: Vista do Rei – Sete Cidades (7km).

Chegámos à Vista do Rei esperançadas de que íamos ver a Lagoa das Sete Cidades, mas não conseguimos nem nesse dia nem em nenhum dos outros 4 em que lá fomos, porque o nevoeiro mostrou-se sempre em todo o seu esplendor.

Arrancámos para a caminhada ainda com as olheiras do dia anterior, como se comprova pela imagem…

Açores 0001

… e lá fomos todas contentes, literalmente por montes e vales, confirmando a cada esquina que a piada de nos Açores só se ver vacas é mesmo verdade:

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O caminho começou a piorar e deixámos de ver as marcas, mas estávamos convencidíssimas de que estávamos no caminho certo. O trilho deveria ser qualquer coisa como isto…

Trilho Lagoa

… passadas algumas horas, muitas mais do que seria de esperar para completar o percurso, Sete Cidades, nem vê-la. Aliás, só se via nevoeiro, campos e vacas. Começou a surgir alguma preocupação, mas achámos sempre que ia correr tudo bem, como, aliás, é nosso apanágio em todas as situações, e seguimos em frente. Mais um par de horas a andar, a começar a chover, sem vermos marcas nem sinais de pessoas e com o GPS a falhar, começámos a ficar preocupadas, até porque tinha anoitecido e não fazíamos a mínima ideia de onde estávamos. Insisti para continuarmos a descer, porque achei que íamos ter a algum lado, e fomos… chegámos à estrada, andámos mais umas dezenas de metros e vimos duas casas. Decidimos pedir ajuda. Batemos a uma porta e explicámos que tínhamos o carro na Vista do Rei. A cara de pânico do senhor que nos atendeu não nos tranquilizou. Estávamos no Pilar da Bretanha, a mais de 11km do ponto inicial…

Pilar da Bretanha

… com uma enorme simpatia, o senhor tirou de casa a esposa e o filho bébé e foi levar-nos de carro até à Vista do Rei. Pelo caminho lá nos foi dizendo que a Vista do Rei não era um lugar seguro de noite e que era uma sorte se chegássemos lá e ainda tivéssemos os 4 pneus no carro… Scary Stuff!!!

Chegadas à Vista do Rei, encontrámos o nosso carro tal e qual como tinha ficado. Agradecemos à família que nos safou o dia e entrámos no carro para voltar a casa. Assim que ligámos o carro, mais um problema: depósito na reserva! Pânico!!! Ainda perguntámos à nossa família “de acolhimento” onde é que havia uma bomba ali próximo e a resposta foi aterradora… “Agora, só em Ponta Delgada!”. Ou seja… a 26km de distância!!! Portanto… a aventura ainda não acabou… Era de noite, estava um nevoeiro demoníaco, havia imensos obstáculos na estrada (carrinhas estacionadas em 4 piscas, que só conseguíamos ver quando estávamos a 3 metros) e precisávamos de chegar a Ponta Delgada com o carro na reserva…

Depois de conduzir 26km nestas condições:

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…lá chegámos a Ponta Delgada, onde descemos a avenida de entrada na cidade em ponto morto até à bomba de gasolina. Aí, depois de carregado o depósito, decidimos ir tomar um banho e jantar em casa. Foi um dia e pêras!

Quem tem amigos tem tudo

A semana passada tive um susto muito grande. Com o meu carro parado na via para prestar auxílio a outro carro que estava com sinalização de perigo, um terceiro carro que entrou na curva à maluca e travou a fundo com a estrada cheia de água e óleo entrou pelo meu porta-bagagens adentro e atirou-me o carro contra o da frente. O meu porsche mégane break, como gosto de chamar ao meu modesto Renault ficou em modo sanduíche. No primeiro momento em que percebi que se tivesse estado lá dentro muito provavelmente não estaria aqui a escrever-vos, quase que acreditei em Deus. Depois, quando percebi que o mais provável era que aquele momento fosse o fim de uma linda história de amor entre mim e o meu companheiro de estrada fiquei pra morrer. O meu carro e a minha casa são bens materiais a que me apeguei como se fossem pessoas de família. Estive três dias com a minha capacidade de raciocínio perto do zero. Aquele acontecimento obrigou-me a  tomar uma decisão definitiva sobre a minha partida: tenho que decidir se vou ou não arranjar um carro (aquele arranjado, ou outro) até me ir embora. Porém, se o objectivo é ir-me embora daqui a três meses, isso não faz muito sentido e a indemnização que me vão pagar vai-me fazer mais falta para outras coisas. Conclusão: “Joana Fernandes, vais ter que decidir a tua vida AGORA!”

Parece que não, mas estes momento têm coisas muito boas. Descobri, por exemplo, que, se dependesse dos meus amigos, teria uma frota de carros à porta de casa para usar enquanto precisasse. A verdade é que até hoje não fiquei nem um dia apeada. Entre as ofertas de carros emprestados e a re-organização dos meus pais para me darem boleia sempre que preciso faz-me sentir quase como se não tivesse acontecido nada.

No meio desta confusão, recebi um aviso dos correios para ir levantar uma encomenda. Ora bem, eu sabia que não tinha pedido nada, por isso achei estranho, até porque o remetente era uma tal de “Jane Doe Online Store”. Uma rápida pesquisa no Google deu estes dois resultados:

“Jane Doe T-shirts: Improving the way society responds to victims of sexual assault” – Hum… Não me parece…

“The names “John Doe” for males and “Jane Doe” or “Jane Roe” for females are used as placeholder names for a party whose true identity is unknown or must be withheld in a legal action, case, or discussion. The names are also used to refer to a corpse or hospital patient whose identity is unknown.” – Jesus!!!

Juro que pensei deixar ir a encomenda para trás… mas lá passei pelos correios para ver o que era… e ainda bem… Dado que não me pode emprestar o carro dela, porque está a alguns milhares de Km daqui e que eu tinha feito anos há menos de duas semanas, a Sofia decidiu mandar-me um kit love! Os meus amigos são o máximo!!!

T-shirt com estampagem “The best is yet to come” e luvas do amor 🙂

E a tal de Jane Doe online store existe mesmo aqui.

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Sonhar não custa…

Hoje ainda não é o dia, mas um dia esta história há de ser contada assim:

Uma mãe chega a casa depois de passear a cadela Gau nas areias da praia em frente à sua casa. No quarto, o filho Francisco, que está a ler antes de dormir chama-a para lhe fazer uma das perguntas da praxe na idade dos porquês. E a partir daqui esta história lê-se com sotaque…

– Mãe, como é que você conheceu o papai?

– Bom… Então… Eu sempre quis morar no Rio, desde que eu tinha mais ou menos a sua idade. Mas eu tinha medo. Medo de não ter trabalho, de ficar longe da família, de ficar sem dinheiro, enfim… medo do desconhecido, apesar de eu sentir que o Rio era minha casa. Então, teve um momento em que eu decidi que tinha que vir de qualquer jeito e marquei uma data. Meu único problema é que eu ainda não tinha trabalho aqui e morria de medo de ficar sem dinheiro e ter que voltar. Foi aí que aconteceu uma coisa muito ruim. Eu tive um acidente. Graças à Deus eu estava fora do carro então não fiquei ferida, mas o carro ficou muito destruído e o seguro deu perda total. Depois de alguns dias de muita tristeza porque eu amava aquele carro e queria ficar com ele por muitos e bons anos, eu achei que talvez ele tivesse outro papel na minha vida. O seguro do cara que bateu em mim pagou a indenização e esse dinheiro me deu uma motivação extra para vir pra cá! No final de Abril eu vim para Rio e fiquei morando uns tempos na casa da tia Martha. Um ano depois a tia João veio passar o Carnaval com a gente e depois a gente foi para a Índia e viajamos dois meses só com uma mochila nas costas. Na volta me chamaram pra trabalhar na equipe de comunicação das Olimpíadas de 2016. Trabalho de sonho! Foi aí que eu conheci seu pai. Numa noite que a equipe foi tomar um chopp no Leblon ele tava lá tocando num barzinho. Quando a gente saiu ele tocou “Chega de Saudade” olhando pra gente e depois mandou um bilhete pra mim. Ele já morava aqui em São Conrado, então eu me mudei pra cá. Quando as Olimpíadas terminaram me chamaram pra trabalhar lá na MPBfm onde fiquei até hoje. Numa noite aqui em casa seu pai estava tocando com a turma dele e eu não tava gostando de alguns dos arranjos, então fui lá sugerir uma coisa diferente. O cara do baixo trabalhava como produtor na Biscoito Fino e me chamou para trabalhar com ele então foi assim que eu fiquei trabalhando como jornalista na Rádio e como produtora musical na Biscoito.

– Então é por isso que você tem uma miniatura desse seu carro antigo lá na estante?

– É filho, para eu nunca esquecer que tudo acontece por algum motivo…

– Ah, tá!

– Vamo’ dormir?

– Mãe, você nunca me contou porque é que você queria tanto vir morar no Rio.

– É. Tem razão Francisco. Nunca contei. Mas isso é uma longa história…

Maybe

Imagem (mandada pela Sofia) 
Fonte: Love Texts