RJ D4 | As ondas de São Conrado

O Domingo que passámos no Rio foi dia de voltar à Rocinha e ver como é que a comunidade tinha evoluído nestes três anos. O Ricardo e a Mariana chegaram às 7 da manhã de Vitória do Espírito Santo e partimos de Botafogo em busca do 586, o ônibus que atravessa toda a Zona Sul e que sobe a estrada da Gávea em direcção à favela.

Não foi fácil perceber que antes da última curva da Gávea, onde termina o bairro com maior IDH do Rio e começa a Rocinha, todos os ocupantes do ônibus saíram, excepto nós…

Passada a barreira feita pela PM à entrada da favela começaram os 5 minutos de pânico em que estivemos ali meio perdidos, com toda a gente a olhar para nós com uma legenda na testa a dizer “O que é que estes gringos estão aqui a fazer?!”. Houve até uma senhora, que às 09h30 da manhã já estava sentada no chão a beber cerveja, que nos disse para irmos um bocadinho mais para cima porque a vista de lá era mais bonita… Estivemos ali por alguns minutos eternos, até que alguém me chamou e perguntou se eu era a Joana. Uma jovem, de nome Mariana, estava à minha espera para nos fazer companhia até à chegada do Bétão (não estou nada segura de que isto tenha acento, mas é para soar carioca) que apareceu poucos minutos depois.

Foi fantástico rever aquelas ruas três anos depois e perceber que, apesar da pobreza que ainda está instalada até à medula, começam, aos poucos, a surgir sinais de alguma melhoria nas estruturas da favela. As ruas continuam seguríssimas e agora, com a favela pacificada, percebe-se que as pessoas andam mais tranquilas na rua. Passámos por imensos becos e ruas estreitas; cruzámo-nos com sinais de pobreza instalada que doem no fundo do coração; percebemos que, tal como em outras partes da cidade, o saneamento continua a ser um problema muito complicado e que em muitas zonas da Rocinha, o esgoto corre a céu aberto em direcção a São Conrado; passámos por crianças e mais crianças a correr; vimos homens e mulheres nas suas duras vidas diárias; ouvimos falar sobre o que mudou e sobre o que falta ainda mudar e conseguimos a proeza de voltar a encontrar o “Seu Jorge”, da casa Chokito, cuja irmã trabalha no seminário dos Olivais e que há três anos, quando estive no Rio, me tinha mandado recado pelo padre Miguel para que fosse visitar o irmão dela à Rocinha e dar-lhe um abraço pessoalmente.

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Duas horas depois, chegados ao fim da Rocinha, o Ricardo foi voar com o Chico, o que me permitiu ter quase uma hora sozinha para namorar os areais e as ondas de São Conrado 🙂

A água, a areia, o ar, o vento, o cheiro de São Conrado… tinha tantas tantas saudades deste recanto do Rio que depois de fazer a orla da praia duas vezes fiquei parada, no meio do areal, com a água a molhar-me os pés ainda cheios de feridas do primeiro dia. E foi como se de repente todas as coisas más fossem embora e eu voltasse a sentir que o mito do bom selvagem é mesmo verdade. Como se agora, depois de voltar a lavar os pés naquela água, eu pudesse, mais uma vez, voltar a casa para começa de novo, com a certeza absoluta, quase física, de que tudo vai correr bem.

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Depois da melhor hora que passei no Rio, com os pés metidos debaixo da areia e da água da minha praia, foi tempo de dar uma volta na feira hippie de Ipanema e seguir para a festa caipira onde comemorámos o aniversário da Carla, mãe da Camila!

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Além de provarmos algumas especialidades como queijo coalho, salsicha e doces típicos, vivemos a experiência de ver o Brasil disputar a final da Copa das Confederações no meio de uma festa de brasileiros. O jogo foi super animado e o Brasil até ganhou mas provavelmente devido ao clima de protestos que se vive nas ruas e do péssimo fim que teve a manifestação que tinha acontecido junto ao Maracanã, a festa da vitória acabou muito cedo e uma hora depois do final do encontro não havia ninguém nas ruas a festejar.

Uma das melhores coisas do dia foi ter conhecido pessoalmente a Camila, que esteve em Portugal recentemente e até era para ficar em minha casa, mas com desencontros em cima de desencontros acabou por chegar a Lisboa numa altura em que eu estava no Porto.

RJ D3 | Na terra de Araribóia

O dia amanheceu bem cedo e chegou muito rapidamente a hora de ir para Niterói. No Rio, tudo dá certo. Não tinha nada especialmente combinado com o Ivan, nem tinha a menor noção de quanto tempo precisava para chegar de Botafogo à Praça XV e da estação das barcas ao outro lado da baía, mas tinha a certeza que tudo ia correr bem.

Os pés estavam a melhorar lentamente e saí de casa a horas para chegar a tempo às barcas, mas antes ainda passei no café do Uruguaio para beber o único expresso decente que conheço nesta terra e apanhei um dos quinhentos ónibus que vão do Rio Sul para a Praça XV. Sempre à janela, apesar do meu feeling me dizer que aqui, os lugares do meio são mais seguros, atravessei a orla até ao Mergulhão (que na verdade é a parte de baixo de um viaduto) e saí na praça XV. A última vez que estive aqui, no 25 de Abril de 2010, a praça estava cheia de gente. Decorria o Viradão carioca, o festival mais democrático da cidade, e eu vim comemorar o nosso dia da liberdade num concerto fantástico do Milton Nascimento. Hoje é fim de semana e por isso a praça, que habitualmente fervilha de gente nas horas de ponta, está calma. Comprei o bilhete e entrei na barca. A travessia para Niterói faz-se em 20 minutos e à chegada lá, não encontrando o Ivan, sentei-me a ler num banco à sombra da estátua do índio Araribóia, que em 1573 recebeu da coroa portuguesa as terras de Niterói, com a missão de defender o lado oriental da Baía de Guanabara. Foi aí que o Ivan me encontrou.

Depois de um almoço num restaurante de esquina e que tinha como prato do dia a minha amada carne seca mineira com aipim…

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…o Ivan apercebeu-se que eu já conhecia todos os pontos importantes de Niterói, menos o Parque da Cidade, que ele também não conhecia.

Pusemo-nos a caminho, esperámos pelo 32 (enquanto apreciávamos a estrutura de ligações eléctricas que mesmo nas zonas com melhor qualidade de vida, é assustadora)…

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…e lá fomos nós até à praia de Charitas e fomos descobrir como é que se subia para a melhor vista sobre a cidade do Rio de Janeiro. Um senhor super simpático informou-nos que teríamos que subir a pé um morro enorme, com uma estrada a pique e nós fomos. Logo no início da subida, graças a Deus, um alemão que ia a passar de carro ofereceu-nos o boleia. Se tivéssemos subido a pé acho que terímos parado antes. Mas quando chegámos lá acima percebemos que teria valido a pena, mesmo que fosse a pé! Enjoy…

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