Um dia especial

Hoje foi mesmo um dia muito especial… Pela primeira vez vendi um livro meu! Não o fiz com esse propósito e até me soou estranho quando a Patrícia me disse que queria comprá-lo porque o tinha achado lindo e queria oferecê-lo a uma amiga que adora livros de viagens. Fiquei meio envergonhada, afinal de contas, esta sensação de haver alguém que não me conhece que acha que aquilo que eu escrevo vale dinheiro é muito esquisita e muito nova. Espero que não por muito tempo…
Esta edição era para oferecer a amigos e não para vender, mas já muitos dos amigos que o leram me disseram que devia vendê-lo.
É certo que gostava de escrever mais, e também é certo que quero escrever livros e publicá-los, mas o Timbre é tão tão pessoal que nunca tinha pensado nele desta forma… Foi bom! Foi uma experiência nova (obrigada Patrícia!) sobre tudo porque aconteceu numa esplanada do Campo Pequeno em que, apesar do serviço e a quantidade de comida não ser para relembrar, deu para desfrutar de um fim de tarde com conversas à volta de livros e autores. E obrigada à Sofia que me apresentou a Patrícia!

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E não é que ele existe mesmo?!

Costuma dizer-se que um homem cumpriu o seu dever quando plantou uma árvore, escreveu um livro e teve um filho. Eu já plantei muitas árvores e embora nunca tenha sido mãe, dei muito colo aos meus meninos da Candeia. Faltava-me o livro, que já estava a ser escrito desde 2010.

Foi um processo longo, nem sempre fácil, mas chegou ao ponto de “ou vai ou racha” e aí, o que faltava foi feito de empreitada, desde a revisão de texto, até à escolha das fotografias e ao projecto gráfico, concebido pela Vanessa.

Depois, foi preciso escolher os materiais e os acabamentos e enviar as Artes Finais para a gráfica. O dia em que as caixas chegaram lá a casa foi emoção total! Afinal de contas, é o meu primeiro livro (hão-de vir mais) e cumpriu o objectivo que era ser uma mistura de diário de viagem e guia turístico do Rio. Estou muito, muito orgulhosa!

Primeiro chegaram as provas e os crachás:

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E depois, “O Timbre do Rio” prontinho:

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Estou emocionada!

O livro ainda está na gráfica e espero receber brevemente a prova de impressão, mas hoje chegaram os crachás que já trazem o logotipo e que estão lindos de morrer!

Apesar de ser uma tiragem de 50 exemplares e de ser só para a família e os amigos, porque é muito pessoal, não deixa de ser o meu primeiro livro. Começa a tornar-se realidade e só me apetece andar aos pulos 🙂

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RJ D7 | O Rio pela janela

Quando acordei na 4ª feira só me apetecia chorar. A partida era um facto irrevogável e ficou decidido que íamos estar na rua até ao limite da hora do autocarro.

Saímos bem cedo para conhecer a Urca a pé e daí partimos para o eixo sagrado Ipanema / Leblon, onde ficámos até às dez da noite! Deu para ir à Toca do Vinicius matar saudades da Bossa Nova e do Carlos, deu para ir à livraria Argumento mergulhar nas prateleiras cheias de livros e discos, almoçar em Ipanema enquanto partimos pedra sobre assuntos do coração, o que, entre amigos, é sempre muito bom, e fazer a Visconde Pirajá, a Ataúlfo de Paiva, a Vieira Souto e a Delfim Moreira um sem número de vezes, porque não há melhor programa quando se está no Rio com o melhor amigo do que andar a pé e conversar até doer a garganta.

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No Arpoador vimos o sol a pôr-se e o Vidigal a transformar-se numa enorme árvore de Natal no morro, à medida que escurecia.

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No boteco, onde jantámos com os Luíses e a Teresinha, falou-se de Portugal, do Brasil, dos nosso emigrantes e do caminho que o mundo vai seguir.

O Paulo apanhou-nos em casa, depois da viagem de autocarro mais maluca e perigosa que me lembro de ter feito na vida, entre Ipanema e Botafogo, e levou-nos para a Rodoviária, por um caminho que atravessa as maiores feridas do Rio: as favelas do centro, e as esquinas onde, apesar da história, o crack ainda faz as suas vítimas. O percurso do ônibus pela Avenida Brasil, a caminho de São Paulo, deixa entrar pelas janelas as imagens cortantes das favelas do subúrbio, onde o valor da vida humana é muito diferente do nosso e onde milhares de cariocas se amontoam em km de bairros de lata ao longo da estrada, de um lado e de outro. Penso na viagem que acabei por não fazer, de carro, pela BR-101 e pelas curvas da estrada de Santos. É porque não tinha que ser. Tem que ficar alguma coisa para as próximas visitas. O cansaço e as lágrimas vencem-me e deixo-me dormir. Quando acordar já estarei em São Paulo… 20 anos depois…

RJ D6 | A Teresa, os meninos da Candelária e a última noite

Estamos quase de partida e isso é uma coisa que me deprime. Ter que sair desta cidade parece-me sempre uma violência brutal, como se me estivessem a arrancar do lugar onde pertenço.

Hoje tínhamos ficado de almoçar no Leblon com a Teresinha, uma das minhas duas melhores amigas da primária de quem perdi o rasto com nove anos e que reencontrei há mais ou menos seis meses. Saímos de casa para tomar o pequeno-almoço em Copacabana e seguimos para o Alto Leblon, onde fica o escritório onde a Teresa trabalha. Finalmente conheci a livraria Argumento, outro ícone cultural da cidade 🙂

Depois do almoço num boteco espectacularmente típico, fomos tentar descobrir onde é que havia um ônibus que nos levasse para o Cosme Velho onde queríamos ir visitar o Namasté, um centro de meditação e bioenergética. Depois de muito procurar à chuva, lá encontrámos o bendito ônibus, que, devido às obras na Ataúlfo de Paiva agora está a passar na Delfim Moreira, e atravessámos metade da cidade para chegar a uma das zonas mais bonitas do Centro. Por obra e graça do Espírito Santo, a ladeira do Ascurra, que queríamos encontrar, ficava exactamente ao lado do terminal de autocarros e foi fácil seguir o caminho em direcção ao cimo, de onde o Cristo nos espreitava por entre as nuvens.

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À saída do Cosme Velho, lembrei-me que ainda não tinha ido à igreja da Candelária, fazer o meu momento de homenagem às crianças vítimas da chacina de 1993. Apanhámos um trânsito infindo dentro de mais um autocarro que faz o percurso do mergulhão da Praça XV até à Rio Branco e descemos na Candelária. A igreja estava fechada, o que é estranho dado que, para os padrões portugueses, estaríamos na hora do terço. Parei, mais uma vez, cá fora, em frente à cruz e aos 8 corpos pintados a vermelho no chão. Continua a parecer mentira que tenha acontecido. Continua a não me entrar na cabeça. Fico ali, parada, em frente à cruz onde estão escritos os nomes dos oito que morreram, como se estar ali, a rezar por eles, me fosse trazer alguma explicação para o inexplicável. É uma agressão enorme ver aqueles corpos pintados no chão e é ainda mais violento ver o número de pessoas que cruza aquele passeio e que já não parece lembrar-se, ou então não quer lembrar-se, de um tempo em que o Brasil vivia a ferro e fogo e em que a polícia brasileira conseguiu produzir em dois anos a chacina da Candelária e o massacre do Carandiru.

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Hoje é a última noite no Rio e por isso, é tempo de incorporar as tristezas e ir dançar no Rio Scenarium, a melhor casa de samba da cidade. Sobre este assunto, exactamente o mesmo que há três anos atrás: felicidade estampada no rosto e no corpo que se sente ainda mais em casa, ainda mais carioca. Samba no pé até a noite acabar!

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