Digitalizar as brincadeiras

Há coisas da nossa infância que se tornam marcantes, por um ou outro motivo (ou até por um conjunto deles) e de que temos saudades em adultos.

Um dos meus vícios de pré-adolescência eram os livros das “Aventuras Fantásticas”. Alguém aí está comigo? Não são as aventuras da Ana Maria Magalhães e da Isabel Alçada, são uns livros, geralmente de semi-terror, com a contra-capa verde, que se liam e jogavam com dados. Já vos está a soar a qualquer coisa?

Pois eu tive muitos… e joguei-os todos. E às vezes fiz batota quando escolhi um caminho numa bifurcação e percebi que era um beco sem saída.

Vai daí (adoro esta expressão) decidi transformar um deles numa coisa mais moderna: um livro interactivo para iPad. Já existem alguns livros destes em formato de jogo para tablet, mas eu queria fazer um, eu própria.

Posto isto, mãos à obra… arranjei o texto, criei um widget para substituir a aleatoriedade dos dados e eis que está pronto para exportar o ficheiro final. Granda pinta! I’m in love with technology!

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Ela e os livros

Hoje pedi a uma visita para escrever. A Rita, de quem já têm ouvido falar por aqui, voltou recentemente a ganhar gosto pela leitura e, por isso, pedi-lhe que nos falasse da sua experiência de leitora e da influência que os livros têm tido na sua vida. Espero que gostem:

Em Agosto eu e a Joana fomos almoçar e no meio de tanta alegria de estarmos juntas e com tantas novidades para contar a Joana disse “Pára tudo, tenho uma mega coisa para te contar! Gostava que escrevesses um texto no meu blog (o meu coração pulou de alegria confesso) mas gostava de te sugerir um tema – o que é que mudou na tua vida desde que começaste a ler.”  Pensei: Oh meu Deus, onde me estou a meter. Mas com um grande sorriso aceitei de imediato o desafio! Passados três meses, deixo-vos esta partilha:

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Quando era pequena via uma série chamada “Uma Aventura”. Adorava ver! Sábado de manhã lá ia eu cedinho… ligava a tv, taça de cereais à frente e só de lá saía quando a série terminasse (nem nos intervalos saia não fosse distraír-me e arriscava-me a perder alguma coisa). A minha avó achava aquilo genial porque durante aquele tempo a criança estava sossegada. Os livros começaram a surgir e num Natal a minha avó fez-me a típica pergunta:

– Tita o que gostavas de ter, filha?

Eu tinha toda uma lista vasta onde estavam bonecas, roupas para as bonecas e outros brinquedos. No fim disse com toda a convicção: 

– Ah, e gostava muito muito de receber o livro de Uma Aventura no Castelo!

A minha avó parou de cortar a cebola, olhou para trás com os seu olhos azuis e perguntou:

– Tita, tens a certeza? Comprei-te a coleção da Anita, leste uma vez e esta ali guardada na prateleira.

– Sim avó, mas estes são para a minha idade e são tão giros!

No Natal o livro estava lá. A minha avó até hoje diz que nunca tinha visto uns olhos a brilhar tanto como os meus naquele momento. O certo é que nos dias seguintes li o livro todo e andava a contar tudo aos meus avós, irmão e prima. A minha avó estava deliciada por vários motivos: primeiro, porque eu estava sossegada e não me portava mal (acreditem, eu era uma verdadeira peste!); segundo, porque sempre tive alguma dificuldade na escola e ela sabia que ler me iria fazer muito bem. A minha prima tinha muita paciência para mim e ouviu-me a contar a história toda. O meu avô chegava a casa estafado do trabalho e muitas vezes a paciência não era muita, mas ainda assim, arranjava paciência para me ouvir a contar o capítulo do dia (até porque essa era a única forma de me conseguir pôr alguma comida na boca). 

Os anos foram passando e os restantes livros foram sempre surgindo. Tive a colecção toda!!!  Ainda hoje os meus avós tem lá todos guardados (juntamente com os d’ “Os cinco” que foram a paixão seguinte). 

Ao longo do tempo, fui deixando de ter interesse em ler. Foram surgindo algumas dificuldades na escola, nas quais os meus avós, infelizmente, não tinham capacidade para me ajudar. Insistiram muito para que eu lesse porque achavam que isso me podia ajudar. Agora que sou mais crescida percebo que quando somos pequenos desvalorizamos coisas a que só aprendemos a dar valor em adultos.  

Comecei a sentir-me vazia quando as palavras eram as mais básicas e os horizontes estavam na mesma (pequenos). No meu curriculum de vida já levava de avanço mais experiência do que se deve ter com a idade que tinha mas continuava com dificuldades. À medida que fui crescendo aprendi a lidar com um dado adquirido “Tem dislexia, coitadinha e tem mau feitio. Temos de saber lidar com isso.” 

NÃO! Se há coisa que a vida me tem ensinado é que nunca é demasiado tarde para aprender. Claro que temos de ter a nossa personalidade mas acho que ter a humildade de perceber que podemos mudar é uma boa ajuda. Então vamos a isso, não vamos ficar sentados a passar a nossa imagem como coitadinhos porque temos problemas na escrita. 

Pois bem, como fiz esta introspecção, achei que uma das coisas que tinha de alterar era voltar a uma coisa de que gostava em pequenita e onde fui feliz: LER! Ao início comecei a ler antes de me deitar mas o sono aparecia mais cedo e eu não aguentava. Comecei a trabalhar em Lisboa e a ir e vir todos os dias de comboio. Esgotei rapidamente as músicas do meu mp3, já não as aguento, e o livro que tinha em casa não era nada de especial. Começam a chegar facturas sem fim relativas à internet do telemóvel que uso para me entreter nas viagens para o trabalho. Pensei para comigo: “Não! Isto vai acabar. Vou ligar à Joana e pedir-lhe uns livros.”

Assim foi. Mandei uma SMS e uns minutos depois tive uma resposta a dizer “Tenho já 6 de parte :)” 

Trouxe os livros para a minha rotina das viagens. Lá vou eu no comboio a ler… Estou a adorar e entro de tal forma na história que as vezes dou por mim a entusiasmar-me. Arregalo os olhos como quem diz: “Não, isto não vai acontecer!” O meu marido está deliciado e está com vontade de ir a casa do pai buscar a biblioteca dele para a nossa casa. 

Depois de tudo isto, o que mudou na minha vida a leitura? Para começar, as minhas viagens de comboio são mais cheias de conhecimento e a minha imaginação começa a trabalhar. A ideia que tinha da internet é que servia para receber informação mas agora é muito mais para informar do que para receber.  Depois, não há coisa melhor que estar numa esplanada com o meu marido a ler um bocadinho. Estamos em silêncio? Sim! Mas os momentos intimistas de um casal também são feitos de silêncios saudáveis. Acho que é ncessário que isso aconteça para que a união seja ainda maior e a partilha das nossas leituras são ainda mais entusiastas. Damos por nós a falar do assunto e a trocar opiniões e é super giro. E por fim, o meu marido adorou ver a factura do telefone a descer 🙂 

Resta-me agradecer a Joana pelo convite, pela confiança e amor que mostrou ao confiar-me este primeiro testemunho e a quem ler este texto obrigada pelos 5 /10 minutos que vos tomei. 

Rita

Desafio de Leitura 2016

Ora bem, este ano, depois da lista gigante do ano passado, decidi ser mais modesta e apontar para um desafio mais curto. Foi aí que me surgiu a ideia de desafiar o Zica, o Samuel e o Fred para criarmos uma lista nossa. Assim nasceu o nosso desafio partilhado. Partilho-o também convosco caso nos queiram acompanhar. Venham daí!

  • Um livro que queriam ter lido em 2015 e não leram – no meu caso vou ler o Pensar Depressa e Devagar, de Daniel Kahneman
  • Uma biografia – eu e o Zica escolhemos Steve Jobs, de Walter Isaacson
  • A Mão de Fátima, de Ildefonso Falcones
  • O Espião Português, de Nuno Nepumoceno. Este já li 🙂 Logo na primeira semana do ano. Podem ler o que achei aqui, com direito a agradecimento do autor e tudo.
  • E se?… respostas científicas para perguntas absurdas, de Randall Munroe
  • Getting Things Done, de David Allen.  Já estou a ler. Prometo uma opinião quando acabar! (É impressão minha ou já estou a ganhar por um e meio a zero?)
  • À minha filha em França, de Stephanie Keating
  • A Raiz do Mundo, de Francisco Ribeiro Rosa – sugestão do Zica
  • Confidential Kitchen, de Anthony Bourdain – sugestão do Fred, claro, o nosso chef de serviço 🙂
  • O Regresso do filho pródigo, de Henri Nouwen – sugestão do nosso super jesuíta Samuel

Eles os três ainda vão ler uma sugestão minha – As Regras de Moscovo, de Daniel Silva, claro 😛

Que tal? Acompanham-nos?
Eu vou publicando o meu progresso. No momento já li O Espião Português, sobre o qual podem ler a minha opinião aqui, e estou a ler o Getting Things Done.

Desafio1

 

Diz que há espiões no Colombo!

É conhecida (e eu assumo) a minha pancada com os livros de espionagem do Daniel Silva. O seu agente da Mossad, Gabriel Allon, é a minha personagem de ficção favorita – e isto é uma característica que tenho em comum com o Bill Clinton. Chique a valer!, como diria o Dâmaso Salcede.

Num simpático fim de tarde na Feira do Livro de Lisboa, decidi pedir à Patrícia uma sugestão de livro para dar à minha mãe. A resposta foi pronta: O Espião Português.

Confesso que torci o nariz. A ideia de um Allon português deixou-me desconfiada e às vezes sou um bocadinho preguiçosa para conhecer novos autores (faz parte das resoluções de ano novo acabar com isto).

Bom, a minha mãe, leitora fervorosa, gostou, e o romance de Nuno Nepomuceno, tornou-se na minha primeira leitura do novo ano. Ficou bastante acima das minhas expectativas.

André Marques-Smith, um espião com valores e super bom coração, leva-nos a percorrer os corredores da diplomacia internacional e os gabinetes do MNE português enquanto nos vai deixando conhecer o seu grande desgosto amoroso, que mudou a sua vida para sempre.

Fiquei completamente agarrada e “despachei-o” em três dias. O ritmo é alucinante mas intercalado com momentos muito aconchegantes, quando no curto tempo que medeia entre operações altamente perigosas somos brindados com tardes descontraídas na companhia de Kimi e Diogo, a comer pratos de pasta no bucólico jardim de Torres Vedras.

Uma história cativante e que me deixou com vontade de ler os dois volumes seguintes.

A contrariar esta sensação, apenas dois pontos menos bons. Um, admito que seja defeito meu: como não estou habituada a ler romances portugueses contemporâneos, soa-me esquisito estar a ler um livro em que as personagens se chamam João, Marta, Mafalda e Sara e em que as pessoas almoçam no foodcourt do Centro Comercial Colombo. O outro é que fiquei com a sensação de que o conhecimento do autor sobre o mundo da espionagem advém apenas da leitura de outros romances e não de uma investigação mais aprofundada. Senti isto em vários momentos em que me pareceu que vários aspectos das operações não eram plausíveis. Eu própria, que só sei de espiões por ter devorado todos os livros do americano Daniel Silva, li algumas das operações protagonizadas por André Marques-Smith identificando alguns erros operacionais e prevendo as suas consequências negativas. Às vezes ficava mesmo com a sensação de que os espiões da Cadmo eram um bocadinho amadores.

Tirando isto, só coisas boas. Atirem-se a ele!

P.S. – Dois dias depois de ter publicado este artigo fui surpreendida por um email do autor, Nuno Nepomuceno, que se cruzou com esta minha opinião e decidiu agradecer-me a leitura e a opinião. 🙂 Muito fixe! Gosto desta nova onda nos autores portugueses de manterem uma relação directa com os seus leitores, como já me tinha acontecido com o Paulo Moreiras. Obrigada Nuno.

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