O caminho às vezes é duro…

Há um caminho duro a percorrer quando nos apercebemos que vamos deixar de perseguir o sonho da nossa vida…

Sempre quis ser muitas coisas até ao dia em que decidi ser jornalista! Nessa altura fazia parte da redacção do Indispensável, o jornal da Escola Secundária do Restelo, e estava no 11º Ano. Calhou-me a mim moderar um debate em que uma das intervenientes era a Teresa Conceição, da SIC, que eu seguia atentamente em todas as reportagens da Volta a Portugal em Bicicleta. E foi a falar com ela que se tornou evidente: “É isto que eu quero fazer!”.

Cheguei a casa eufórica e contei à minha mãe: “Mãe, afinal não vou ser professora de português. Vou ser jornalista!”. A resposta foi surpreendente: “Sempre achei que devias ser jornalista. Nunca te disse nada para não te influenciar, mas acho que é uma profissão que te cai muito bem.”

Depois disto seguiu-se a Faculdade. Fui para a Católica, que tinha o melhor curso de Comunicação Social de todos. Passei com notas razoáveis às cadeiras do primeiro e segundo ano e depois, quando entrámos nas cadeiras técnicas, de jornalismo puro, foi a loucura. Lembro-me de começar os trabalhos de rádio e televisão ainda na primeira semana de aulas. Fiz um trabalho de rádio do qual ainda me lembro quase de cor. Dois dos meus professores “obrigaram-me” a fazer o estágio na rádio e não na televisão, que era o que eu queria. Aproveitei as férias de Verão para fazer um atelier de Jornalismo Televisivo onde me senti como peixe na água e fiz, em horário pós-laboral, um curso em Jornalismo e Religiões (um tema que ainda hoje me interessa muito). Vivi esses anos com espírito de missão, a preparar-me para ter o privilégio de abraçar a mais bonita profissão do mundo. Queria que as pessoas soubessem. Que soubessem sempre a verdade. Que fossem informadas, que pudessem tomar melhores decisões. Queria honrar todos os dias, com o meu trabalho, quem lutou anos e anos para que eu nascesse num país livre. O lápis e caneta iam ser a minha arma na luta pela liberdade. A melhor de todas. Apaixonei-me por aquilo que achava que era a profissão.

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E depois veio o estágio, numa equipa a desmantelar-se, num turno fora do horário nobre. E foram três meses fantásticos. Aprendi imenso. E ainda assim, percebi que não era aquilo que queria. Que o jornalismo em Portugal não era nada do que tinha imaginado e que não havia missão nenhuma. Que maioritariamente era só ler as notícias que chegavam da Lusa e escrevê-las em língua de rádio. E isso era muito menos do que eu tinha sonhado.

Entretanto, e ao mesmo tempo, estava a trabalhar numa agência de eventos (porque os estágios na nossa área não são remunerados e nós também temos contas para pagar), e conheci duas pessoas que me fizeram voltar a acreditar. A Sofia e o Rosendo são tudo aquilo que eu quis ser. E sentem a sua profissão da mesma forma como eu a sentia. Foi um privilégio lidar com eles de perto e aprender com eles, tantas coisas… voltar a acreditar que afinal ainda há jornalistas de missão, que amam o que fazem e que sabem que têm a mais bonita profissão do mundo. E depois veio a descoberta da TSF, o Carlos Vaz Marques, a Ana Lourenço, a despedida do João Paulo Baltazar, a crise do Charlie Hebdo, que me deixou sem ar e a querer ir às manifestações todas, e mais e mais e mais…

Nunca voltei ao jornalismo, embora tenha voltado por muitas e muitas vezes à minha rádio para rever os colegas e amigos e para matar saudades de escrever notícias, ainda que nem todas fossem para o ar.

Neste momento trabalho numa Software House. Quando vim para cá, mal percebia a língua que esta malta fala. Passados dois anos, até já programei um botão em html. Graças ao Rodrigo, que me trouxe para este mundo dos deploys e do versionamento de código, descobri uma verdadeira vocação: pessoas. A nossa equipa é o activo mais importante que temos e garantir que esta equipa e que cada uma destas pessoas é feliz aqui é uma missão desafiante. Para matar saudades, criei uma área de Comunicação – temos redes sociais e Jornal de Parede. Mas a maior parte do meu tempo é usado em recrutamento e gestão de processos relacionados com pessoas.

Durante estes anos tive fases muito difíceis, em que pensar que nunca mais ia voltar ao jornalismo me doía como se tivesse perdido alguém próximo. Finalmente voltei a ter vontade de vir trabalhar todos os dias. Sinto que faço parte de uma equipa alinhada e feliz e que crescemos juntos todos os dias. Sou feliz a fazer o que faço. Vejo muito menos horas da SIC Notícias, embora tenha saudades e gosto sempre de passar os olhos pelo Público à noite e de ouvir um bocadinho de TSF de manhã. Às vezes ainda tenho vontade de saltar lá para dentro, como agora, com esta história ridícula de nos obrigarem a entregar planos de cobertura de campanha. Entregamos mas é o caraças!

Ainda falo em “nós”, às vezes… mas finalmente alcancei a paz de deixar de sofrer todos os dias por ter escolhido um caminho diferente. Enquanto houver “Sofias” e “Rosendos”, estamos bem entregues e eu posso estar descansada!

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4 thoughts on “O caminho às vezes é duro…

  1. És boa em tudo aquilo a que te dedicas. A tua paixão pelas coisas e pessoas que amas é incomparável, dás sempre tudo, e é aí que reside a Joana, não necessariamente numa empresa, rádio ou televisão.
    E aquilo que ainda te falta descobrir, garota! E aquilo porque ainda te vais apaixonar, oh pa! A isto chama-se viver e tu sabes fazê-lo. Mega beijoca pra ti!

  2. A vida raramente vem a ser o que se espera… O fio que garante a continuidade tem que ser interior e desta forma está na nossa mão não abandonar as nossas convicções e garantir que cada novo cenário virá a ser mais uma peça de um todo harmonioso… A construção é diária e reflete a nossa capacidade de descobrir… Bjs

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