Miguel – parte 4 de 4

Depois desceu. Andou assim durante três dias, a cumprir rigorosamente todos os rituais que levara tantos anos a decorar: almoço, remédios, lanche, jantar, remédios, dormir… banho, pequeno-almoço, remédios, jardim, almoço, remédios, lanche, jantar e remédios. Continuou invariavelmente a sentar-se à mesa à hora certa das refeições e sem que ninguém aparecesse levantava-se algum tempo depois e passava para a tarefa seguinte do seu dia, porque sempre lhe tinham ensinado que as rotinas eram muito importantes para ele.

Ao fim do terceiro dia as dores de estômago começaram a tomar proporções que eram difíceis de ignorar e Jerónimo viu-se obrigado a fazer algo mais do que ficar sentado à espera que os colegas chegassem e que alguém lhes viesse trazer a refeição. Não percebia porque raio ninguém aparecia e, se toda a gente lhe tinha infernizado a cabeça durante tantos anos por causa da importância de ganhar rotinas (acenavam-lhe com um regresso à independência que, sabia, nunca iria acontecer), não percebia porque é que de um momento para o outro tinham começado a fazer tudo diferente. Mas Jerónimo confiava. Tinha aprendido a confiar enquanto ainda se lembrava de Margarida e lhe prometiam que se fizesse tudo o que lhe mandavam ia voltar para perto da filha. Ao longo de tanto tempo a viver no Miguel, tinha-se habituado a aceitar as coisas que lhe diziam e faziam como necessária para o tratamento de uma doença que ele continuava a não perceber… se tinha ou não tinha, qual era e o que provocava exactamente.

Ao fim do terceiro dia teve que ir procurar comida. O instinto sobrepôs-se à racionalidade com que encarava as tarefas aprendidas. A racionalidade possível a alguém que há 40 anos vivia internado no Miguel por sofrer de esquizofrenia.

Vasculhou a despensa do hospital, e felizmente, tinham deixado para trás alguns mantimentos na azáfama da mudança (que Jerónimo ainda não percebera que acontecera nem porquê). Continuava a vaguear pelo hospital sem ver vivalma e a achar que deviam estar todos ocupados nas suas tarefas normais do dia-a-dia.

Abriu uma lata de atum e comeu-a lentamente porque sempre tinha achado que quando se comia devagar a comida dava para mais tempo. Depois deitou-a fora, num caixote do lixo que não tinha saco de plástico e foi-se deitar.

Pela terceira noite consecutiva dormiu no chão, porque a sua cama deixara de estar no sítio do costume. A cama foi levada na mudança, porque estava na lista dos objectos que tinham que ser levados para o Júlio. O Jerónimo não. Tinha ficado esquecido na cela 8 do pavilhão de segurança, onde meditava na vida e no porquê das casas redondas, enquanto a equipa do Miguel tinha terminado de pôr todos os objectos importantes dentro das carrinhas e tinha ido para o Júlio, desta vez para não voltar.

Jerónimo dormiu no chão e acordou no chão. Tomou banho sozinho, como todos os dias e pela primeira vez questionou-se sobre a ausência de sabonete no poliban. Esfregou-se com as mãos, enxugou-se com uma tolha que encontrara nas deambulações do dia anterior, vestiu a mesma roupa dos últimos dias, porque não tinha mais nenhuma e saiu, para o seu dia normal.

Chegou ao jardim junto ao pavilhão de segurança e olhou as plantas. Pareciam-lhe iguais a todos os dias e isso lembrou-lhe que alguma coisa não estava igual a todos os dias… Desde que acordara na cela 8 e tinha encontrado o hospital vazio nunca mais lhe tinham dados os remédios. Não lhe parecia nada racional terem deixado de lhe dar os remédios, mas tinha-se habituado a confiar e por isso não se preocupou.

HMB 038

E pronto… parei aqui… vamos esperar que a inspiração volte para vos contar como acabou a história 🙂

Estão a gostar?

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