Miguel – parte 3 de 4

… Está uma noite fria em Lisboa e a lua ilumina a cidade como se fosse dia. O vento baralha as folhas das árvores que fazem barulho de ondas a rebentar na linha de areia da praia. Os carros estão arrumados nos seus lugares e as televisões já se calaram nas casas à volta do hospital, agora deserto. As dobradiças enferrujadas da porta de uma cela vizinha rangem dando à noite clara um ar sombrio. Os bichos da noite, os poucos que ainda restam na cidade, circulam pelo pátio do pavilhão cumprindo as suas tarefas de sobrevivência. Dois gatos miam, ao longe, e Jerónimo abre os olhos. À noite não há borboletas nos seus campos imaginários e por isso não há nada com que se entreter. Levantou-se rapidamente, preparado para ir para o refeitório. Se tinha acordado, era de manhã e tinha que tomar o pequeno-almoço. Achou estranho acordar num sítio diferente do habitual. Olhou à volta e viu escuro, mas depois de tantos anos a dizerem-lhe que era louco, achou que deviam ter muita razão e que era ele que não estava a ver bem as coisas. A porta de entrada para o edifício principal está fechada, mas abre facilmente com uma volta no puxador. Lá dentro, ninguém… Os corredores estão vazios e escuros e não se ouve barulho vindo de lado nenhum. Jerónimo tem medo do escuro e não sabe onde se acende a luz. Nunca precisou de a acender nestes anos todos em que a luz estava sempre acesa e havia sempre alguém por perto. Com as mãos a roçarem-se pela parede encontra um interruptor que devolve o dia ao interior do Miguel.

O refeitório estava vazio, e na linha do self-service onde habitualmente se servia da sua refeição não havia pessoas nem comida. Achou que estava maluco, ou então, por algum motivo desconhecido, acordara cedo de mais. Sentou-se no seu lugar de sempre no refeitório e esperou… esperou por mais de cinco horas que alguém viesse trazer-lhe o pequeno almoço. Depois desistiu. Levantou-se, como se tivesse comido o pão com manteiga e o leite habituais e foi para o pátio. Estava a contar pela enésima vez as pedras do chão quando se lembrou que a seguir ao pequeno almoço não lhe tinham dado os comprimidos. Levantou-se, e foi ao quarto, mas os comprimidos não estavam lá. Nem os comprimidos nem o Laércio, o vizinho de cama dos últimos 25 anos. Deve ter ido à ginástica – pensou Jerónimo, para quem a ideia de fazer sessões de fisioterapia não era ainda uma imagem muito clara…

HMB 011

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4 thoughts on “Miguel – parte 3 de 4

  1. Muito bom!!!!

    Citando cafesnopateo :

    > joanayoggi posted: “… Está uma noite fria em Lisboa e a lua ilumina a > cidade como se fosse dia. O vento baralha as folhas das árvores que > fazem barulho de ondas a rebentar na linha de areia da praia. Os carros > estão arrumados nos seus lugares e as televisões já se calaram ” > >

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