Miguel – parte 2 de 4

Jerónimo não tinha medo de nada e dizia que sim a todos os pedidos da filha, que se sentia a criança mais feliz do mundo. Todos os dias eram dia de ir ao lago dar pão aos patos, comer gelados e brincar às escondidas atrás das árvores do jardim do campo de Sant’Ana onde passavam os fins de tarde antes do jantar.

Foi num desses fins de tarde que uma denúncia de um homem cinzento vestido de preto deu o alerta às autoridades. Jerónimo era louco. Jerónimo era feliz e fazia a filha feliz e toda a gente sabe que as pessoas felizes são muito perigosas. Se as pessoas felizes viverem à solta, as pessoas cinzentas vão perceber que são cinzentas e isso é muito perigoso.

Levaram-no para o hospital. Chamaram Maria, sua mulher, e confirmaram o diagnóstico: Jerónimo era louco. O veredicto veio dias depois… internamento compulsivo! E não houve gritos nem choro da pequena Margarida que fizessem o senhor de bata branca mudar de ideias. Esconderam-no. E assim, escondido da essência de felicidade que era a filha, Jerónimo ficou cinzento, como todos os outros e deixou de ser um perigo. Manteve-se assim, longe da sociedade durante 40 longos anos em que os médicos e enfermeiros que o receberam levaram com a reforma a lembrança do verdadeiro motivo daquele internamento. No hospital ficara apenas o processo e o processo era muito claro: esquizofrenia.

Jerónimo já não tem família. Margarida, ferida de morte ao ver-se afastada do pai, cresceu amargurada e a contar os dias para se ir embora. Quando fez 20 anos, emigrou para o Brasil e por lá ficou. Jerónimo tem três netos, mas não sabe. Três netos a quem Margarida conta que a felicidade é um segredo que só se pode contar às escondidas dos senhores de cinzento. Maria morreu. Morreu de desgosto pela morte emocional da filha e sem coragem para se impor à moral e aos bons costumes que lhe gritavam que o certo era o marido estar preso, longe delas, porque era louco.

Nos corredores do Miguel a confusão aumenta e Jerónimo começa a ficar com dores de cabeça por ver as borboletas coloridas voarem tão depressa em todas as direcções. Vira costas à mudança, igual a todos os dias, e fecha-se na cela 8 do pavilhão de segurança, onde gostava de se sentar a imaginar por que raio é que tinham construído uma casa redonda. Noutros tempos teria imaginado correrias e jogos de escondidas com a filha, mas agora não. Margarida tinha morrido na memória do pai. Tinha desaparecido ao longo dos anos em que as paredes do Miguel tinham tornado realidade clínica o diagnóstico falso que lhe fizeram quando era feliz. Margarida já não habitava os campos verdes com borboletas há muitos anos. Era a única forma da cabeça de Jerónimo se proteger do sofrimento que lhe causava a imagem da menina mais bonita da escola.

Sentado na cela, Jerónimo olha à volta e conta borboletas. O barulho de fundo que vem do edifício principal do Miguel parece uma música distante e embalado pelo raio de sol que entra pela janela, adormece…

HMB 033

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