Miguel – parte 1 de 4

O rebuliço tinha começado cedo, ainda o sol não aquecera a cadeira em que se senta todos os dias, a meio caminho entre Lisboa e o Universo. Hoje era o último dia da mudança. Uma mudança que ninguém percebia, mas que todos defendiam como necessária. Há dois meses tinham mandado juntar os doentes e os técnicos no Salão Nobre para comunicar a decisão e o dia ficou irremediavelmente estragado. Logo após a sessão de esclarecimento, as dúvidas surgiram em catadupa e a verdade é que ninguém tinha resposta para elas. A notícia chegou por despacho, e como todas as decisões que chegavam ao hospital por despacho, era completamente desajustada da realidade de quem lá vivia e trabalhava. Naquele dia, à saída do Salão Nobre, os rostos de todos os presentes esboçavam total incompreensão em relação às palavras proferidas pelo director meia hora antes e que apenas tinham confirmado aquilo que já há dias se ouvia, de hora a hora, nos canais de notícias.

Tinha chegado o último dia da mudança, e apesar da imagem geral de caos, cada personagem parecia saber exactamente o que fazer, como se existisse um guião para aquele momento. Uma espécie de último acto que tinha sido ensaiado vezes sem conta. Cada um deles parecia saber exactamente que peças desmontar, o que transportar, de onde e para onde, e em qual das dezenas de carrinhas de mudanças devia colocar cada um dos pedaços de história do hospital que agora fechava portas.

Estavam naquilo há três dias. Um prazo de loucos para transferir o conteúdo de uma instituição com 165 anos de vida… mas enfim, eram as ordens, e por isso a correria estava instalada. A preparação dos doentes tinha começado muito antes. Uns, em direcção à autonomia que nunca pensaram recuperar e outros, rumo à nova casa que lhes prometiam ser tão ou mais acolhedora do que esta. Mas poderia alguma vez o Júlio tornar-se tão familiar como era o Miguel?

Jerónimo olhava. Olhava e não compreendia nada do que lhe diziam as pessoas que por ele passavam, rostos técnicos tornados familiares nos últimos 40 anos em que, à força, fizeram do Miguel a sua casa:

– Então é hoje Jerónimo!

– Preparado Jerónimo? Casa nova?!

Jerónimo olhava e não percebia. Não percebia o alcance destas palavras. Não percebia que hoje alguma coisa estava diferente. Para ele não estava. No mundo onde vivia, Jerónimo via tudo igual a todos os dias dos últimos 40 anos: homens e mulheres, com e sem farda a transitarem como formigas atarefadas de um lado para o outro a fazer coisas que ele não percebia o que eram nem para o que serviam. No mundo em que Jerónimo vivia, o fervilhar de gente à sua volta não era mais do que o rápido esvoaçar de borboletas coloridas no campo de relva por onde preguiçosamente vagueava todos os dias.

A esquizofrenia de Jerónimo tinha sido descoberta (diagnosticada talvez seja um exagero para a medicina psiquiátrica dos anos 70) numa tarde em que tinha ido buscar a filha à escola. Margarida era muito bonita. Era a menina mais bonita da escola. E a cumplicidade feliz entre ela e o pai fazia inveja a todos os colegas que tinham pais que eram como o país – cinzentos e que não sabiam rir. Jerónimo ria com Margarida. Abraçava-a e dava-lhe beijos todos os dias quando a ia buscar à escola, como se não a visse há uma eternidade. A eternidade que dura um dia quando, de manhã, se entrega uma filha de seis anos numa escola cheia de gente.

HMB 034

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2 thoughts on “Miguel – parte 1 de 4

  1. Muito bom!

    Citando cafesnopateo :

    > joanayoggi posted: “O rebuliço tinha começado cedo, ainda o sol não > aquecera a cadeira em que se senta todos os dias, a meio caminho entre > Lisboa e o Universo. Hoje era o último dia da mudança. Uma mudança que > ninguém percebia, mas que todos defendiam como necessária. Há doi” > >

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