Acima de tudo somos portugueses (ou será abaixo?)

No dia do último jogo de Portugal no Mundial, estava eu a ouvir na rádio um daqueles intermináveis e desinteressantes programas de antevisões dos jogos, com opiniões de todos os quadrantes (até havia um psicólogo a falar da influência no empenho dos jogadores das substâncias libertadas pelo organismo), e alguém disse “Mas acima de tudo sou portuguesa e por isso acredito que vamos passar.”

Assim de repente não percebo o que é que uma coisa tem a ver com a outra. Eu também acreditei que íamos passar, mas não por ser portuguesa. Acreditei porque era plausível que a 4ª selecção do Ranking da Fifa ganhasse ao Gana e que a Alemanha, que está a jogar muito, desse uma abada a uma selecção de um país que nem gosta especialmente de futebol.

Mas adiante…

O que me moeu o juízo foi mesmo o “acima de tudo”.

Não faz sentido. O que está acima de nós é uma limitação, é algo que não se consegue alcançar.

Eu não sou acima de tudo portuguesa. Eu sou portuguesa de base, o que é completamente diferente.

Ser portuguesa não é algo que me limita. Tem a ver com aquilo que eu sou no fundo de tudo. Sou portuguesa, sou ateia, sou caucasiana, sou do Sporting. Tudo o resto que eu sou e que eu faço é construído em cima desta base, que me define como pessoa e que define algumas linhas estruturantes daquilo que eu penso. Mas não me limita de forma nenhuma.

Sei perfeitamente que a expressão foi utilizada como sinónimo de “o mais importante é que sou portuguesa”, mas ainda assim… as palavras têm o seu peso e a forma como construímos as frases, mesmo que não tenhamos essa noção, influencia o nosso pensamento. E eu não quero pensar no facto de ser portuguesa como algo que paira sobre mim como uma meta que me diz “daqui nunca vais poder passar”. NÃO! Tou farta de ouvir gente a olhar para as derrotas da nossa selecção e a dizer “Pois, é sempre a mesma coisa. Os portugueses nunca vão a lado nenhum!”. Não vamos porque não queremos! Deixe-se se conversas estéreis de que somos pequenos e do Fado e da ditadura e sei lá mais o quê. Parem de achar que vamos ganhar “se Deus quiser”. Mas o que é que Deus há-de ter contra os outros para querer que Portugal ganhe? Deixem de ser portugueses acima de tudo e passem a ser portugueses só.

Acima de tudo eu sou tudo aquilo que construí para mim e sou aquilo que eu quiser ser em cada momento. Isso é que é o meu acima de tudo. Acima de tudo sejam aquilo que quiserem, sabendo que nasceram em Portugal e que isso vos dá uma nacionalidade. Só isso. É para isso que há passaportes (já para não falar da livre circulação de pessoas e mercadorias na UE).mapa-europa

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