Se as redacções não tivessem enlouquecido…

… Eu poderia voltar a ter a sensação que tive hoje, ao conduzir à noite na Marginal, depois de mais um ensaio. Eu poderia ouvir que o destaque do noticiário das 22h, na rádio da informação, era o facto do Quaresma não fazer parte da lista de convocados de Paulo Bento para o Mundial do Brasil e ficar descansada, com a certeza de que, se aquela era a notícia de destaque, então nada de muito grave poderia ter acontecido no mundo.
Mas depois, afinal, tinham morrido 40 pessoas nas maiores cheias dos últimos tempos nos Balcãs. Só que sucede que os Balcãs são muito longe daqui, e por isso, essas mortes são menos relevantes do que o Quaresma falhar o Mundial.
Fico a imaginar as horas que os programas de comentário desportivo das rádios e televisões vão gastar a opinar sobre o facto. E a quantidade de linhas que vão ser escritas na imprensa e na internet (as caixas de comentários dos jornais desportivos vão rebentar, de certeza!).
E nada mais será dito sobre as criaturas que morreram nos balcãs… E sobre os diamantes de sangue, e os escravos, e as vítimas de violação e as crianças que morrem de fome em terras muito distantes daqui…
Se as redacções não tivessem enlouquecido, eu ainda estaria na minha, onde restam, dos meus colegas da época já muito poucos. Só os que ainda resistem.
Se as redacções não tivessem enlouquecido, eu saberia ainda o que é o doce sabor de se trabalhar no ofício que se escolheu por amor, por ser o mais bonito do mundo.
Se as redacções não tivessem enlouquecido, eu não estaria entusiasmada porque amanhã vou continuar a trabalhar na aplicação que a minha equipa inventou e desenvolveu e que nos mostra, num site, se as casas de banho da empresa estão livres ou ocupadas. Estaria também eu, quem sabe, em frente a um microfone, a dizer ao país desempregado e sem esperança, que o Quaresma não vai ao mundial.
Esta é mais uma noite em que, apesar de triste, eu dou graças a Deus por não estar numa redacção.

 

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2 thoughts on “Se as redacções não tivessem enlouquecido…

  1. Tens toda a razão, e e como tens… mas de facto, de algum modo isso faz-me mesmo pensar que muito dificilmente te adaptarias a este funcionamento e muito dificilmente conseguirias estar feliz… quando a vida fecha uma porta, abre sempre uma janela… é preciso força e disponibilidade mental para apreciar a nova paisagem…

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