Memória de Elefante

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Estava ansiosa… afinal de contas a minha mãe disse-me durante anos que, enquanto andava a ler o “Memória de Elefante” o meu pai ameaçou que lhe escondia o livro porque ela estava a ficar intratável.

Quando ela me ofereceu o livro, achei estranho. Como é que um livro tão pequeno e que, imaginava eu, se lia depressa, podia ter aquela influência sobre uma pessoa tão equilibrada como é a minha mãe (já que de mim não se pode dizer o mesmo…).

A seguir ao “Água Viva”, da Clarice Lispector, cujos comentários podem encontrar aqui, achei que estava na altura de tirar aquela questão a limpo!

E, realmente, não foi exagero. Durante os três dias em que o li (andar muito de transportes tem destas coisas, despacha-se um livro por semana), andei triste, e sem fé nenhuma na vida.

Desconcertante. É o mínimo que se pode dizer. Lobo Antunes arrasta-nos na sua quase esquizofrenia e leva-nos com ele para um coração estilhaçado pela guerra em África, o tratamento dado aos doentes psiquiátricos no Hospital Miguel Bombarda e, pior que tudo, a separação da mulher e das filhas.

O tempo narrativo é de apenas 24 horas e o livro não deve ter mais do que 150 páginas, mas garanto-vos que, durante três dias, eu estive profundamente convencida de que a vida era um castigo sem esperança de redenção.

E porque não consigo ler um livro do Lobo Antunes sem andar com um lápis para sublinhar as maravilhas que ele faz com palavras, aqui estão alguns dos melhores recortes

“As octogenárias pousavam nele os olhos descoloridos de vidro, ocos como aquários sem peixes, onde o limo ténue de uma ideia se condensava a custo na água turva de recordações brumosas.”

“(…) fazia tudo isto em metódicos gestos lentos de pescador para quem o tempo se não segmentava em horas como uma régua em centímetros mas possui a textura contínua que confere à vida intensidade e profundez inesperadas.”

“Ingleses magros como pontos de exclamação sem veemência (…)”

“Resignado à trincheira da pastelaria, cuja máquina de café relinchava vapor pelas narinas impacientes de puro-sangue de alumínio (…)”

Em Portugal o livro está editado pela Dom Quixote.

Imagem Elefante
Fonte: Abriendo el Alma

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3 thoughts on “Memória de Elefante

  1. Told you so… É de facto inacreditável o efeito de desolação, desespero e desamparo… mas por isso mesmo, é muito bom, muito intenso, muito forte…

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