Água Viva

água viva

Lê-se de um fôlego. Só pode ler-se de um fôlego porque não podemos parar a meio de uma respiração.

Dá a sensação que Clarice inspirou muito fundo, ao mais fundo das suas entranhas, e depois, de um fôlego, verteu em letras em cima de papel branco todo o conteúdo do seu coração e da sua cabeça (não sendo, de todo, segura a origem de cada uma das linhas).

Não vos consigo explicar mais nada do que isto… mas deixo-vos com alguns recortes:

Eu sou antes, eu sou quase, eu sou nunca. E tudo isso ganhei ao deixar de te amar.
Escrevo-te como exercício de esboços antes de pintar.
 
E respeito muito o que eu me aconteço. Minha essência é inconsciente de si própria e é por isso que cegamente me obedeço.
 
Todos os seres vivos, que não o homem, são um escândalo de maravilhamento: fomos modelados e sobrou muita matéria-prima – it – e formaram-se então os bichos.
 
Minha voz cai no abismo de teu silêncio. Tu me lês em silêncio. Mas nesse ilimitado campo mudo desdobro as asas, livre para viver.
 
Mas lembrar-se com saudade é como se despedir de novo.
 
E eis que sinto que em breve nos separaremos. Minha verdade espantada é que eu sempre estive só de ti e não sabia. Agora sei: sou só. Eu e a minha liberdade que não sei usar. Grande responsabilidade da solidão. Quem não é perdido não conhece a liberdade e não a ama. Quanto a mim, assumo a minha solidão. Que às vezes se extasia como diante de fogos de artifício. Sou só e tenho que viver uma certa glória íntima que na solidão pode se tornar dor. E a dor, silêncio. Guardo o seu nome em segredo. Preciso de segredos para viver.
 
Vou ter que interromper tudo para te dizer o seguinte: a morte é o impossível e o intangível. De tal forma a morte é apenas futura que há quem não a aguente e se suicide. É como se a vida dissesse o seguinte: e simplesmente não houvesse o seguinte. Só os dois pontos à espera.
 

Em Portugal o livro está editado pela Relógio d’Água.

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3 thoughts on “Água Viva

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