“Que seja de Deus!”

VATICAN-POPE-VOTE-BALCONY-FRANCOIS I

Foi com esta frase que um grande amigo partilhou comigo a sua alegria pela eleição do Papa Francisco.

Estou a meter-me em assuntos que não são meus, mas vivi tão intensamente este processo todo (que começou com uma conversa com São José, numa missa nas Caldas da Rainha, em vésperas da resignação) que preciso mesmo de dizer umas coisas sobre este assunto.

Não tenho a mínima dúvida de que foi a igreja que, há muitos anos, me afastou da fé. E não tenho a mínima dúvida de que o mundo precisa de uma igreja católica refeita dos seus traumas e de coração aberto para nos ensinar que o caminho está no amor. Mas também não tenho dúvidas de que, para que isso seja possível, a igreja tem que mudar, muito. Aliás, todos os católicos que ouvi por estes dias, ao vivo, na televisão ou na rádio, falaram em mudanças. Em mudanças necessárias. Parece que estão reunidas as condições para isso porque o povo de Deus quer mudanças e está preparado para elas. O que é surpreendente é que parece que essa mudança está mesmo a acontecer. A nós parece-nos devagar, mas tendo em conta a estrutura imensa de que estamos a falar, a mim parece-me que estamos a mudar à velocidade da luz.

Hoje ouvi o cardeal Dom José Policarpo a dizer uma coisa muito interessante: se o Papa Francisco tivesse sido eleito no conclave de há 8 anos, mesmo que quisesse fazer grandes mudanças, não teria condições para isso e hoje em dia tem.

De facto, não deixa de ser engraçado que tenha sido Ratzinger, um Papa que à partida ligávamos tanto à tradição da igreja e que nos parecia um homem tão austero, a abrir caminho para que mudanças tão relevantes possam ter lugar brevemente. Depois da resignação, há caminho para mudanças, e ainda bem.

Comoveu-me a emoção das pessoas em S. Pedro. Estive o dia todo com o streaming da chaminé no cantinho do ecrã do computador, e o fumo branco apareceu quando estava no meio de uma reunião. Não deixa de haver uma sensação de estar a viver um momento histórico, e a história em directo é sempre emocionante.

Fiquei feliz por ser um Papa da América do Sul, continente onde a fé católica está pujante. É importante este sinal de não-centralismo da religião. Fiquei muito feliz por termos um Papa Jesuíta. Sou suspeita, mas sempre achei que os Jesuítas são um mundo à parte dentro da igreja. Identifico-me totalmente com a forma de estar da Companhia e acho que um Jesuíta à frente da igreja só pode trazer coisas boas.

Fiquei ainda mais feliz com a escolha do nome Francisco. Por vários motivos. Primeiro porque é um nome que eu adoro e que quero dar a um dos meus filhos. Depois porque é o nome do Chico Buarque 🙂 e depois, e estes sim são os motivos ligados à igreja, pelas inspirações de Francisco Xavier e de Francisco de Assis e pelo sinal que é a escolha de um nome novo, como quem quer dizer que vamos começar uma coisa nova, que não é continuação de nenhuma das anteriores.

Não querendo embandeirar em arco, até porque temos que deixar o senhor respirar, aqueles primeiros momentos na varanda foram sintomáticos daquilo que me parece ser um homem humilde, que fala de coração e que ama os outros como a si mesmo. Foi bonito a forma simples como se vestiu, foi bonito rezar por Bento XVI, foi muito bonito ter pedido a bênção antes de abençoar e foi extraordinário a forma improvisada como falou ao povo de Deus ali reunido. Avizinham-se coisas boas, parece-me.

Hoje, o Carlinhos escreveu no Facebook: “Se não me caso contigo, torno-me padre”, disse Jorge Bergoglio, actual Papa Francisco, a Amália, a sua primeira e única namorada na Argentina. Sinal de que amou de verdade. Daquele amor que sabe que “ou é contigo ou não é com mais ninguém”. É muito bonito isto. O tempo dirá, mas, por enquanto, estou feliz 🙂

P.S. – Sim, ultimamente ando a falar muito de Deus e da igreja. Mas eu nunca menti a ninguém… não sou crente, mas a fé dos Homens e os seus assuntos fascinam-me. Além disso, a verdade é que entre amigos padres, coro religioso, voluntariado e amigos “beatos”, a fé é um assunto que eu não tenho muita hipótese de ignorar… E é isto ser ateia praticante 🙂

Imagem Papa Francisco
Fonte: O Globo

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