Um sonho

Sanatorio-da-covilhaEra de madrugada. Andava por um corredor com paredes frias e em cimento. Ao meu lado estava o Pedro, o meu grande amigo Pedro Barbosa, em quem eu confiava de olhos fechados, e uma rapariga, baixa, da qual não via o rosto.

O prédio era velho, a apodrecer mesmo. Lembrava-me de ter passado, dois andares acima, no térreo, por uma recepcionista, tipicamente antipática, sentada atrás de uma mesa, no hall de entrada, mas não me lembrava do que ela tinha dito.

Eu, o Pedro e a tal rapariga seguimos em frente e demos com uma sala, fria, com duas camas de hospital, nas quais estavam duas mulheres, alimentadas por garrafas de soro, que não estavam certamente acordadas. A sala era grande e tinha tudo o que um quarto de hospital deve ter, excepto enfermeiros, médicos, ou qualquer outro elemento vivo. As mulheres pareciam mortas e eu ainda não tinha percebido onde estávamos. Sem mais nem menos, o Pedro, aos gritos, começou a insultar uma das mulheres, a da direita.

– Cala-te Pedro, por favor! 

Mas já era tarde. Quando olhei para a frente, a mulher insultada estava a levantar-se. Arrancou a seringa do soro que a alimentava e preparava-se para se pôr de pé.

Começámos os três a correr, a fugir desesperadamente pelos corredores labirínticos daquele prédio aterrador, a fugir daquela mulher que nos perseguia como resposta aos insultos com os quais o Pedro, vá-se lá saber porquê, a tinha presenteado. Escondidos numa reentrância escura da parede, do nosso lado esquerdo, deixámos que a mulher passasse pela nossa frente e virasse a esquina. Saímos e dirigimo-nos ao elevador. Assim que tocámos no botão, um barulho indiscreto ecoou no corredor. A mulher parou e voltou para trás. O elevador não chegava e ouvíamos os passos dela a caminhar na nossa direcção. Virou a esquina. O elevador chegou e abriu as portas. Eu e a tal rapariga entrámos imediatamente, mas o Pedro não. Gostava de correr riscos. Num gesto desesperado, puxei-o pela camisola:

– Entra Barbosa, entra!

Só quando a mulher estava a chegar muito perto é que ele entrou. Faltava agora o tempo das portas fecharem, e foi já por uma nesga de espaço entre elas que a vi a chegar em frente ao elevador, que acabou de fechar nesse momento. Uff! Estávamos salvos!

E não me lembro de mais nada, se não que a saída do prédio (muito provavelmente uma imagem do antigo sanatório da Covilhã) estava no lugar da Escola Superior de Enfermagem Maria Fernanda Resende e, portanto, desembocava na Avenida do Brasil, perto de Alvalade, e já era de manhã.

Este sonho atormentou-me durante semanas. Acordava agitada, suada… mas depois acalmava, até que ganhei coragem para o escrever. Nunca falei sobre ele a ninguém, até ao dia em que, cerca de um ano depois, conheci a Jucka, no meio de uma discussão futebolística em que éramos as únicas a defender o Pedro Barbosa. Tive a certeza que era ela que estava lá connosco.

26 de Dezembro de 2001


Imagem 

Fonte: Biblioteca de Arte – Fundação Calouste Gulbenkian

Anúncios

Deixar um comentário

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s