Pérolas da Faculdade…

ecaEsta semana nas arrumações lá em casa encontrei uma pérola! Eu sempre adorei escrever, e sempre escrevi muito, muito mais do que escrevo agora… Quanto estava em letras, na Nova, mandaram-me pegar num excerto d’ “Os Maias” e continuar a história de outra maneira, sem limitações espacio-temporais. A coisa foi de tal forma que pus o João da Ega a andar de Comboio na linha de Cascais. Ora vejam como eu escrevia em 2003:

“Na carruagem através do Aterro, a ansiosa interrogação de Ega a si mesmo foi «Que hei-de fazer?» que faria, santo Deus, com aquele segredo terrível que possuía, de que só ele era senhor, agora que Guimarães partia, desaparecia para sempre?”

  • Raios partam o homem! Tinha que morrer logo agora!? Logo gora que precisava dele para me ajudar a revelar este segredo?
  • O senhor está bem?
  • Desculpe?
  • Perdoe-me… vi-o a falar sozinho e…
  • Ah! Não se preocupe. Obrigada. Veja o senhor que sei um segredo terrível sobre a minha cunhada e o patrão dela e a única pessoa que conhecia este segredo além de mim, morreu anteontem.
  • Sinto muito!
  • Não sinta, que o homem não… quer dizer…, desculpe, eu estou um pouco perturbado.
  • Imagino, não faz mal. Tem certeza que não precisa de nada?
  • Tenho, tenho. Agradecido. Boa Dia!
  • Bom Dia!
    Saiu do comboio. Chegara ao Estoril! E agora? Que faria? Durante horas vagueou pelos jardins junto à estação sem saber que rumo seguir. Às 9 horas em ponto tomou a decisão: o Mário tinha que saber! Subiu pela vigésima primeira vez o jardim e entrou no aglomerado de casas.
    Que selva! Da última vez que ali tinha entrado não se via um carro.
    Passados alguns minutos, ali estava ele, em frente àquela enorme e imponente vivenda onde morava o Mário.
    O que fazer agora? Será que devia entrar? Seria ele a pessoa certa para revelar aquele segredo? Uma imensidão de perguntas invadiram-no como uma rajada de vento. Como poderia… eram 9 horas da manhã. Como podia ele entrar naquela casa para revelar um segredo que poderia acabar com a vida de mais de uma pessoa? Não. Definitivamente não. Não podia. Virou-se para trás para apanhar o comboio de regresso a Lisboa. Tinha sido uma atitude irreflectida ir até ali para falar com o …
  • João da Ega!!!
    Tarde de mais. O Mário tinha-o visto.
  • Mário, como está?
  • Então homem!? Caíste da cama? Que andas a fazer pelo Estoril a estas horas?
    E agora? Devia dizer-lhe ou não. Sabia que o Mário tinha que ser informado, mas seria ele? Deveria ser ele a fazê-lo?
    De repente, um “preciso de falar consigo” saiu-lhe pela boca sem que se apercebesse.
  • Comigo? Aconteceu alguma coisa?
  • Mais ou menos… podemos entrar?
  • Com certeza!
    Era o fim. Agora o mal estava feito. Ia ter que contar ao Mário tudo o que sabia. Mas como? Como seria capaz de o fazer? Como por em palavras tudo o que sabia sobre a sua cunhada, Luísa?
    Entraram na sala e sentaram-se.
  • Café?
  • Aceito.
  • Luísa, são dois cafés. E depois venha cá acima que está aqui o seu cunhado.
  • Não vejo a Luísa já há cerca de três meses. Desde que o meu irmão partiu o braço que não vai trabalhar e só tenho notícias pelo telefone.
  • Pelo que sei, o Francisco está quase bom.
  • Sim. Já vai fazer um mês que ele está em casa, mas pelo que sei, na próxima semana volta ao trabalho.
  • Ainda bem.
  • Luísa! Então como estás?
  • Bem, obrigada e tu?
  • Também.
  • Aqui estão os cafés, doutor.
  • Obrigada.
  • Então o Francisco?
  • Está melhor. Volta ao trabalho na próxima semana.
  • Ainda bem. Já faz falta.
  • Então João!? O que querias falar comigo? Deve ser um assunto muito sério para vires de Lisboa ao Estoril às 9 horas da manhã.
    Luísa lançou a João um olhar de espanto e de medo. Parecia-lhe impossível que ele pudesse…
  • Podemos falar a sós?

Imagem Eça de Queiroz
Fonte: Mil e uma letras

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